Workshop de música tribal em Ruanda durante trabalho voluntário no exterior

Após cinco viagens, passando por África do Sul, Zimbábue, Etiópia, Ruanda e Palestina, e de um livro publicado - "Africanamente: o que vivi e aprendi como voluntário na África" - as trips voluntárias deixaram lições que transformaram minha vida.

Para quem está em dúvida em fazer trabalho voluntário no exterior, listei 10 coisas que aprendi e que podem te ajudar a decidir:

1. Viajar por quê?

Quando falo que vou viajar, a primeira pergunta que surge é: viajar pra onde?

Ao optar pelo voluntariado, porém, passei a me questionar: viajar por quê?

O propósito pelo qual viajo tornou-se mais relevante do que o destino escolhido. Não sou guiado por pontos turísticos, mas pelo que faz meus olhos brilharem.

Há quem viaje para preservar a natureza, intercambiar culturas, cuidar de crianças, construir escolas ou atuar politicamente.

No meu caso, viajo como voluntário para quebrar estereótipos, promover tolerância e respeito e dar voz aos povos historicamente oprimidos.

E você? Qual propósito faz seu coração bater mais forte?

2. O voluntário é o mais ajudado

Sempre ouvi que, quando faço caridade, sou mais ajudado do que aquele a quem pretendo auxiliar. É uma bela frase, mas confesso que me soava apenas como retórica.

Isso durou até meu último dia como voluntário no hospital infantil Sarah Fox, na África do Sul.

Ao me despedir das crianças, estava me acabando em lágrimas. Elas, ao contrário, me olhavam com um misto de curiosidade e perplexidade.

Percebi que as crianças estavam acostumadas àquela cena; toda semana voluntários chegavam e partiam. Já para mim, aquela experiência havia mudado minha vida e ficaria para sempre na memória.

Foi então que me dei por vencido: realmente o voluntário é o mais ajudado.

Viagem de de trabalho voluntário em educação ambiental para crianças de escola primária em Victoria Falls, Zimbábue

3. Trabalho voluntário no exterior não salva o mundo

"Você é um herói" e "o mundo precisa de gente como você" são frases que escuto bastante quando participo de um voluntariado.

Existem bons motivos para viajar como voluntário, porém ser herói e salvar o planeta não estão entre eles. O que resolve os problemas do mundo é trabalho sério e honesto e ser o melhor para sua própria comunidade.

Convenhamos: a maioria dos projetos sociais só existe porque alguém deixou de fazer seu trabalho de forma adequada, certo?

O fato é que ninguém precisa atravessar o oceano para fazer o bem; se seu desejo é ajudar pessoas, com certeza há alguém ao seu lado precisando de auxílio.

4. Fazer o bem é divertido!

Muita gente associa voluntariado com renúncia, porém é apenas uma forma mais sustentável e divertida de viajar.

Sustentável porque você economiza uma grana com hospedagem e alimentação, apoia uma boa iniciativa e foge dos saturados roteiros tradicionais.

Divertida porque as experiências vividas durante o voluntariado são mais interessantes do que visitar um ponto turístico qualquer.

Dá tempo de curtir, conhecer pessoas e passear, mas com um olhar diferente do turista comum.

Por fim, nós, seres humanos, somos animais sociais, programados biologicamente para colaborar uns com os outros. Fazer o bem é parte da nossa natureza. Ao ser voluntário e ajudar pessoas, consequentemente sua felicidade e satisfação aumentam.

Viajar como voluntário me permitiu integração com membros da tribo Hamar, na Etiópia

5. Faça amor, não faça check-in

Sabe aquela pessoa que viaja como se estivesse em uma maratona, com cronograma rígido, pulando de um ponto ao outro só para conseguir postar uma selfie em cada atração turística? Não seja essa pessoa.

Viajando como voluntário, aprendi a curtir a comunidade onde estou. Estabelecer relações profundas com as pessoas passou a ser mais valioso do que colecionar check-ins.

6. Somos todos um

Hospedei-me em parques nacionais, tribos indígenas e campos de refugiados. Convivi com cristãos, judeus, muçulmanos e rastafaris.

Independentemente de onde ou com quem eu esteja, sempre me perguntam se "eles" são muito diferentes da gente.

Sim; se olharmos para a cor da pele, a cultura, a religião ou os hábitos, temos quase nada em comum.

Ao passar várias semanas com cada uma dessas pessoas, porém, pude olhar nos olhos delas e descobrir que, por trás das diferenças, somos todos humanos, com os mesmos medos e anseios.

Somos todos um.

Mulher Hamar chega para uma oficina de negócios promovida pela ONG com trabalho voluntário no exterior

7. Autoconhecimento

“Isso não é pra mim. Não vou mudar. Estou velho demais pra isso. Queria viajar como você, mas não posso porque...”

Por quê, mesmo?

Viajar como voluntário me tirou da zona de conforto, colocou-me em situações inusitadas, trouxe alguns contratempos e me provocou a fazer coisas que jamais imaginei ser capaz de realizar.

Descobri que muitas limitações existiam apenas dentro da minha cabeça.

É como diz o ditado: quem quer, dá um jeito; quem não quer, dá uma desculpa.

O voluntariado me trouxe autoconhecimento. Aprendi mais sobre mim mesmo, descobri fraquezas e qualidades que nem imaginava possuir.

Viajar como voluntário é, também, uma viagem para dentro de si mesmo.

8. Só sei que nada sei

Antigamente, acreditava ter resposta para tudo. Embarcava cheio de planos a serem colocados em prática assim que chegasse.

Aos poucos, entendi que isso era apenas mais um traço da minha prepotência.

Compreendi que as pessoas a quem eu pretendia ajudar estavam lidando com sua própria realidade durante uma vida inteira.

Não seria eu, o estrangeiro recém-chegado, quem traria soluções milagrosas para seus problemas.

O voluntário não é capaz de resolver tudo com um passe de mágica; seu papel é o de escutar as pessoas, entender o que elas precisam, como pensam e deixá-las conduzir o processo de busca por soluções.

Em uma palavra: humildade.

9. A pobreza não foi criada pelos pobres

A frase foi dita pelo vencendor Prêmio Nobel da Paz, Muhammad Yunus.

Tive a oportunidade de ver de perto os efeitos colaterais do apartheid, na África do Sul, do genocídio, em Ruanda, e da colonização israelense, na Palestina. Em todos os casos, havia algo em comum: nenhum dos lados foi o verdadeiro responsável por iniciar o conflito.

Quem fez isso fomos nós, os estrangeiros, o "Ocidente", com nossa sede de riqueza e poder.

Reconhecendo isso, deixei de ver o outro como coitado subdesenvolvido e a mim como salvador.

As pessoas com as quais convivi têm qualidades e defeitos, porém são plenamente capazes de cuidar de si mesmas e decidir por conta própria, desde que estejam livres para isso.

10. Eles não precisam de nós

Durante uma visita a uma comunidade rural no Zimbábue, ouvi que "a África precisa dos voluntários".

Devemos ajudar os países africanos, a Palestina e tantas outras nações historicamente oprimidas e exploradas? Sem dúvida.

Mas os voluntariados me ensinaram que nós devemos ajudá-los não porque eles precisam de nós, mas porque o mundo é que precisa deles, de toda a sua inteligência, cultura e diversidade.

Todas essas comunidades merecem ter sua própria voz e conduzir seu próprio destino - e cabe à gente permitir que isso aconteça, sem interferências. 

Caso queira saber mais das minhas experiências e dicas sobre trabalho voluntário no exterior, é só me mandar mensagem pela comunidade!


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Gustavo

Fundador do Trip Voluntária e autor do livro "Africanamente: o que vivi e aprendi como voluntário...

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Nov 05, 2018


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