Como a depressão me levou para uma ecovila em Baependi, Minas Gerais

Minha experiência com a Worldpackers não curou as dores que me cercavam, mas trouxe um pouco de luz aos meus dias sombrios.


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Luan

Fev 08, 2019

Brasileiro, 29 anos, redator e mochileiro fazendo voluntariado.

Foto de voluntário em uma ecovila

O meu ano de 2018 começou confuso, cheio de incertezas e carregado de desânimo. Eu passava por uma depressão amena, mas sentia que a qualquer momento poderia explodir, feito uma panela de pressão. 

Foi nessa época que eu conheci a Worldpackers e percebi que precisava viver algo novo. Após meses de anedonia, eu finalmente estava experimentando um pouco de entusiasmo.

Na hora de escolher o destino, Minas Gerais me surpreendeu com a ecovila Vrinda Bhumi. Não tive dúvida, aquele era o lugar pra mim.

1. Viajando com o Id Jovem

Eu não tinha dinheiro para as passagens de ônibus, muito menos para viajar de avião. Por sorte, um amigo me falou sobre o Id Jovem (benefício do governo federal que permite realizar viagens interestaduais de ônibus gratuitamente). 

Após retirar minha carteirinha de beneficiário, corri para o Terminal Rodoviário do Tietê e emiti as passagens para Minas Gerais pagando apenas uma taxa de R$ 8.

2. Primeira parada: Caxambu

Chegar em Vrinda Bhumi não é tão fácil. Saindo de São Paulo, a primeira parada é em Caxambu. A cidade tem atrativos muito interessantes, como o Parque das Águas, lugar conhecido por suas fontes de águas minerais e medicinais.

Lá encontrei uma pousada bem simples para pernoitar. Na manhã do dia seguinte, conheci um pouco a cidade e parti para o segundo destino.

3. Segunda parada: Baependi

É muito importante chegar em Baependi antes das 15h, pois nesse horário sai o ônibus com destino ao bairro Piracicaba (não é possível ir andando, eu acho). 

Como cheguei antes do meio-dia, aproveitei para almoçar, tomar um sorvete e bater perna. No horário marcado, segui rumo ao destino final (ou quase).


ônibus durante o trajeto até Baependi

Ah! O ônibus é uma aventura a parte e o trajeto pode ser bastante cansativo. Confesso que em alguns momentos pensei “acho que estou me metendo numa enrascada”, mas eu sabia que a depressão daria seus sinais a qualquer momento, então apenas fui com depressão mesmo.

4. Terceira parada: Piracicaba

O bairro Piracicaba pertence ao município de Baependi e o percurso durou aproximadamente uma hora. Ao chegar lá existem duas opções: encontrar uma carona (um dos moradores oferece esse serviço) ou seguir a pé pelos quase 8km de estrada até a ecovila. Eu encarei o ramal, a chuva que ameaçava cair e os bois que passavam livremente pelo caminho de barri. No meio do trajeto, eu ganhei uma carona inesperada. Ufa!


Foto de @tiagompo

5. O Vrinda Bhumi

O lugar é lindo e aconchegante, mas não oferece muito conforto. Fui recebido pelo administrador da ecovila e logo conheci meu cantinho de dormir. 

Os dormitórios são rústicos e não existem camas. Como fui orientado a levar saco de dormir, mas como não dei muita atenção a essa instrução, eu me virei do jeito que pude. Na primeira noite, quase não consegui pegar no sono e acordei às 6 horas sentindo as costas muito doloridas. Ok, faz parte da experiência. Eu não queria viver algo novo?

As refeições são vegetarianas e absurdamente gostosas. Tive sorte de chegar num dia de celebração. A prasada (nome dado ao alimento santificado oferecido a Krishna) possui temperos marcantes e bastante saborosos. Toda a cerimônia é muito bonita: moradores e hóspedes se encontram no mesmo ambiente, formando uma roda, entoando cânticos e oferecendo a refeição a Krishna. 

Enquanto comem, todos conversam livremente e se divertem. Na época eu ainda não era vegetariano estrito, mas adorei cada prato. Acho que ali me tornei um pouco mais consciente.


Foto de @tiagompo

O trabalho voluntário é braçal e super gratificante. Era a primeira vez que eu trabalhava com permacultura. No começo, estranhei o contato tão próximo com terra, barro e cocô de gado. O cheiro me embrulhou o estômago algumas vezes, mas eu fingia que tudo estava sob controle. Depois da primeira hora, minhas mãos já sabiam o que fazer. 

Experimentei um cansaço físico interessante. De alguma forma, meu corpo doía, mas eu me sentia bem. Era a conexão com a natureza fazendo seu trabalho.

Agora preciso fazer uma confissão, ok?

No segundo dia, eu pensei em desistir. Queria ir embora. Bateu uma ansiedade repentina, um medo inexplicável e uma sensação de aprisionamento. Na minha cabeça, algo horrível poderia acontecer. Mas aguentei até o dia seguinte. E valeu a pena!

Quer saber? Foi uma experiência incrível. Pratiquei yôga, tomei muuuuito banho de cachoeira, conheci pessoas maravilhosas e me alimentei muito bem. 

O medo me rondou o tempo todo, mas eu aceitei sua presença e aproveitei a experiência. Foram cinco dias desafiadores, que me tiraram da zona de conforto e me renovaram as energias.


Foto de @tiagompo

Posso dizer que a depressão me levou até Vrinda Bhumi, mas não me segurou pela mão no caminho de volta. Claro, eu não estava curado. A depressão tá sempre por perto. Mas algo diferente aconteceu. Acho que uma centelha se acendeu.

Essa primeira experiência com a Worldpackers iluminou meu caminho.



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Luan

Fev 08, 2019

Brasileiro, 29 anos, redator e mochileiro fazendo voluntariado.


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