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Como foi voluntariar na Rússia

Quando resolvi me aventurar com a Worldpackers estava desempregada em São Paulo, com o hematoma de um pé na bunda ainda meio roxo e me tratando da depressão. Sim, estava me sentindo um verme no estrume do cavalo do bandido.


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Monise

Currently 'backpacking' around Europe with a heavy suitcase, running away from my comfort zone. ...

Mai 14, 2018

ponto turístico de Moscou

Após pesquisar muito online, pois não tinha nenhum conhecido que tivesse feito esse tipo de viagem, me inscrevi e comecei a procurar por anfitriões. Meu objetivo era visitar países na Europa que eu ainda não tivesse visitado.

Há alguns anos morei na Europa trabalhando como au pair e aproveitava minhas férias para fazer aquelas viagens loucas de visitar três países em uma semana, mas dessa vez eu queria viajar com mais tempo e de fato “morar” nas cidades.

Comecei trabalhando em um hostel na Bélgica, depois visitei outras cidades somente como turista e, ao final de três meses, precisaria sair do espaço Schengen (O Acordo de Schengen é uma convenção entre países europeus sobre uma política de abertura das fronteiras e livre circulação de pessoas entre os países signatários), então pensei na Rússia.

Estava na Dinamarca e vi que os voos eram baratos para lá e esse é um dos pré-requisitos para as minhas escolhas de anfitriões: que o transporte de um lugar para o outro custe pouco.

Encontrei então o Hostel Kremlin Lights, me inscrevi e fui aceita.

Se tratando de Rússia, não me surpreendi quando meus e-mails que mais pareciam livros autobiográficos foram respondidos somente com “Ok, yes, you are welcome”.

Arrumei a minha malinha e fui feliz da vida.

Como combinei no meu email de confirmação, cheguei em uma segunda-feira às cinco da manhã, até aí tudo bem, a recepção do hostel era 24/7.

Quando cheguei, demorou cerca de 20 minutos até o recepcionista ir abrir a porta. 

No final da tarde o dono do hostel chegou e foi conversar comigo no seu inglês nível básico. Ele disse que, apesar de eu ter aplicado para a vaga na recepção, precisava de mim para fazer algo diferente no hostel, já que o staff estava completo (um recepcionista e uma faxineira).

Ele me pediu que organizasse um tour nas estações do metrô de Moscou. 

Um tour no metrô? Sim, um tour no metrô, pois 44 das 200 e cassetada estações de metrô em Moscou são consideradas patrimônio histórico e cultural e as agências de viagem cobram de 20 a 30 euros por um tour nas sete estações mais importantes, então ele tinha a ideia de oferecer esse tour para os hóspedes como cortesia e sobrou para mim.

Como, se eu tinha acabado de chegar e não sabia absolutamente nada sobre a história do metrô?! Ele disse, “take your time, you can do it”. Pânico.

Entrei em pânico porque em primeiro lugar não sou uma pessoa lá muito extrovertida, então ser guia turístico para mim era impensável, segundo porque NENHUM sinal no metrô de Moscou está em inglês e terceiro porque o host não tinha material para me ajudar, eu teria que começar do zero.

Meu primeiro pensamento foi procurar outro lugar e ir embora, afinal, eu tinha aplicado para recepção e ele não tinha me dito nada por email, mas aí pensei por um dia inteiro e resolvi ficar.

Dizem que é bom sair da tal da zona de conforto, né?!

Estação Komsomolskaya

Comecei a ler tudo sobre o metrô, sobre cada uma das estações mais bonitas e fui fazer uma pesquisa de campo (nome bonito para andar de metrô e se perder).

Confesso que minha vontade era chorar, aquele alfabeto doido nos faz sentir na pele como é ruim ser analfabeto. Não dá nem para pedir informação, quase ninguém fala inglês.

A vantagem de viver nos tempos de hoje é poder contar com o celular para tudo. 

Ao final de três dias eu já tinha montado meu roteiro pelas estações, ensaiado tudo que eu tinha que falar e feito um flyer sobre o tour para pendurar no mural da recepção. Ufa. Agora era torcer para que nenhum hóspede quisesse o tour, haha.

O acordo com o hostel era somente a acomodação, já que eles não serviam café da manhã. 

Quanto ao tour, eu poderia cobrar uma taxa se eu quisesse, ficar com o dinheiro e trabalhar só quando tivesse alguma demanda, o que não seria muito, já que era um hostel de 30 camas e a maioria dos hóspedes eram russos.

Resolvi cobrar somente o valor do meu bilhete de metrô e combinar com o hóspede o melhor horário para o tour.

O primeiro hóspede para o tour apareceu no dia seguinte, um cara argentino, que ficou bem desconfiado quando viu que a guia era eu, a brasileira. Comecei bem.

Para evitar maiores frustrações, de ambas as partes, expliquei ao argentino que ele era meu primeiro cliente e que por isso não seria cobrado. O tour decorreu bem médião, me perdi umas três vezes, ele só reparou duas e ficou satisfeito no final. 

Após três semanas eu havia levado 12 hóspedes no tour e ganhado gorjeta da maioria deles. Fiquei impressionada comigo mesma, de como uma introvertida convicta conseguiu disfarçar tão bem!

Quanto ao hostel em si, não teria como ser menos excêntrico do que a minha experiência. A localização é ótima, literalmente em frente ao Kremlin, porém bem pequeno.

O staff, que são duas pessoas, se reveza a cada duas semanas com outras duas pessoas. Eles dormem lá nas semanas de trabalho e eu só soube disso porque numa bela manhã os rostos que eu conhecia não estavam mais lá.

A nova recepcionista não se apresentou para mim até que eu fosse perguntar quem era ela. Eu passei praticamente o mês todo sem conversar com o staff, pois o nível de inglês deles era de frases decoradas para a recepção. 

Muitas vezes eu tirava as dúvidas mais específicas dos hóspedes que não eram russo.

Como eu tinha muito tempo livre, pude aproveitar bastante da cidade que naquele mês, agosto, tem tudo acontecendo ao mesmo tempo.

O clima estava ótimo, não tão quente como os verões de lá costumam ser.

Conheci alguns locais que foram muito gentis comigo e me levaram para conhecer outras partes da cidade, que é enorme.

Pude desmistificar aquela imagem louca soviética decadente que eu tinha da Rússia e encontrei uma cidade linda, bem organizada e extremamente limpa.

Me apaixonei pela culinária georgiana, que é bem forte por lá, e me desesperei no supermercado quando percebi que meu celular novo e barato não fazia fotos com foco, me impossibilitando de traduzir as embalagens pela imagem. Lá vou eu digitar letrinha cirílica por letrinha cirílica.

Minha experiência na Rússia foi uma das coisas mais loucas nessa minha viagem que já dura mais de um ano. 

Aquela depressão que eu estava tratando, sabe? Já não tenho mais notícias. Assim como meu terapeuta havia me alertado, a viagem em si a substituiria muito bem.

Então caso você se veja numa situação como uma porta fechada às 5 da manhã num país com um alfabeto diferente do seu e com a fama de não ser muito amigável, não desista, vai melhorar e você vai se divertir!



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Monise

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Mai 14, 2018


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