O voluntariado que mudou minha vida

Em janeiro, quando estava montando o roteiro para minha viagem pelo Nordeste do Brasil, a primeira cidade que pesquisei oportunidades foi Recife, Pernambuco. Na minha cabeça, em algum momento eu teria que passar por ali e essa capital mágica, cultural e mista abriria os braços para mim e mudaria minha vida.


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Ana Paula

Arquiteta e Mochileira • Buscando, reconhecendo e admirando as novas versões de mim a cada dia • ...

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Out 10, 2018

voluntários do Pirata Hostel

No primeiro dia que pisei no Nordeste, ainda com o pé quebrado (Sim! Comecei meu mochilão com o quinto metatarso quebrado, na cara e na coragem!), desci em Recife para pegar o ônibus para Maragogi e já senti a emoção de quem estava prestes a viver ali por um tempo.

Vinha do coração mesmo e parecia que a minha primeira experiência como voluntária seria para me preparar para chegar no ápice de emoção de todo trajeto, no mês do meu aniversário, todas energias conspirando a favor.

Então, após três semanas no paraíso que é Maragogi, onde trabalhei com artes produzindo um mosaico de cacos de azulejos, estava feliz por descobrir Recife. Mesmo chegando antes do prazo para o voluntariado, escolhi que passaria a noite como hóspede mesmo, começando a viver o Piratas da Praia. Assim foi feito.

Cheguei com o pé ainda em recuperação e os dedos ainda machucados da argamassa do painel e, quando sai da farmácia onde procurava alívio para as queimaduras... surpresa! O capitão da embarcação, aquele à frente do hostel, Paulo, e outra funcionária maravilhosa, Aninha, tinham ido a meu resgate oferecer ajuda, quase uma comprovação imediata do que ia encontrar nesse mês: cuidado e amor.

No outro dia, após algumas explicações por parte do pessoal sobre os horários, regras de boa convivência da casa, dicas e outras informações básicas para o voluntário, pude escolher meus dias de contribuição com a limpeza do hostel e pude começar a viver aquele local que, para mim, é uma galeria de arte.

Quando chegam novos viajantes há uma conversa com o capitão, buscando saber as histórias por trás das viagens, as expectativas, e então você é batizado com um nome novo, pensado por você ou num consenso da conversa. O meu foi escolhido pelo próprio Paulo: Fushi, uma releitura das colchas de fuxico, já que desembarquei em Recife com o pé e as mãos debilitados, eu estava ”remendada”.

Aquilo mexeu comigo.

Batizado no Piratas da Praia Hostel

Na minha cabeça, já entendia que seria muito mais que a oportunidade de me reinventar com o outro apelido ou mesmo de reconhecer aqueles machucados que tive. Na verdade, a esse ponto, estava conhecendo pessoas que mudaram minha vida diariamente e me reconstruía com as histórias que me contavam e que vivíamos juntos.

Todavia eu, sempre muito conversada e desinibida, me travei! Estava muito acostumada a me hospedar em hostels há anos e já tinha tido a experiência em Alagoas. O que eu não sabia era que encontraria tanta gente segura, diferente, artista! A energia da cidade realmente transforma e atrai aqueles espíritos livres, intensos.

Por isso, passei uma semana vivendo uma confusão interna, ninguém se abria muito comigo e ainda me assustava a mistura de tantos egos, tantas mentes criativas, tantas cores de cabelos e unhas, tanta personalidade única. Eu acreditava que não pertencia ali.

Então eu precisei parar, pensar, sentar na praia de Boa Viagem e entender que o Piratas é uma amostra do que eu amava e esperava de Recife: é mágico, cultural e misto. Isso só é possível porque a singularidade das pessoas é que faz a mistura e as experiências únicas. 

Como a colcha de fuxico que é composta de pedacinhos fragmentados, independentemente de quem você é ou quer ser, você encaixa, e é isso que faz a peça tão bonita.

A partir do momento em que compreendi que a peculiaridade de cada um não era um problema ali mas, na verdade, era a graça, pude entender que a liberdade daqueles que admirava também poderia sair de mim. Assim, quanto mais segura de minha personalidade e de minha história, mais fácil seria me abrir para a experiência e me permitir. Pude ver claramente que estava distante, receosa, e quem iria romper essa barreira senão eu?

Nessa altura, não esperava uma reflexão tão intensa sobre as relações e interações que vivia, dentro e fora de mim, porém, seria muito triste ter me entregue de outra forma. Não posso nem imaginar o quão errado seria começar as amizades e compartilhamentos dali sem essa lição de viver sem julgamentos, ser você mesmo, ser transparente com você e com os outros. Esse é um de mil aprendizados que tive nessa viagem e que carregarei para o resto da vida.

Me recolher com receio da aceitação, do não-pertencimento, seria não ter vivido o Piratas da Praia e o Recife, seria ter sobrevivido.



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Ana Paula

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Out 10, 2018


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