Chapada Diamantina aos Lençóis Maranhenses: 6 meses de viagem pelo Nordeste

Durante seis meses estive em uma viagem pelo Nordeste e, aproveitando toda essa experiência, escrevi nesse artigo como foi conhecer cada um dos estados da região.


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Glauber Vinícius

Worldpacker a quase dois anos, sempre fazendo de tudo um pouco e ajudando a quem precisa

Out 01, 2018

paisagem dos Lençóis Maranhenses, onde passei durante minha viagem pelo Nordeste

Depois de ter morado em São Paulo e ter sido reprovado no mestrado que fui tentar, decidi usar o dinheiro que havia guardado para fazer uma viagem longa pela região do Nordeste brasileiro. Tinha ainda muitos meses de assinatura da Worldpackers, o que me deu mais um incentivo. O mestrado ficava para depois.

Primeiro decidi que meu objetivo era passar por todos os nove estados. Depois, imaginei meu roteiro. Como moro no Norte de Minas Gerais, o mais fácil seria começar pela Bahia e subir pelo litoral até o Maranhão. 

Parece um planejamento bem mal feito ou que fui sem saber de nada, mas não é bem assim. Iria tentar viajar por um tempo longo, talvez oito ou nove meses, fazer voluntariado em hostel nos lugares que me interessavam mais, e com isso teria tempo para pesquisar sobre os locais que estava e que iria em seguida. Tudo isso decidi em janeiro deste ano, e foi nesse mesmo mês que solicitei uma vaga de voluntário na Chapada Diamantina. Tive uma resposta rápida e logo tudo já estava combinado. Agora era só preparar a mochila e ir.

1. Bahia 

No dia 1° de fevereiro cheguei a Lençóis, cidade do Viela Hostel, depois de três ônibus, algumas horas em Bom Jesus da Lapa e ter dormido em Seabra, duas cidades antes do destino. 

O Viela ficava bem no centro da cidade e meu trabalho lá era cuidar da recepção e atendimento aos hóspedes. Deu para treinar um pouco o inglês com vários dos estrangeiros que chegavam por lá.

No meu tempo livre, ia conhecer alguma coisa da Chapada Diamantina. Conheci muitos hóspedes por lá e fui com muitos deles para vários lugares. Por conta disso não precisei pagar por agência de turismo ou guias. Também consegui durante alguns dias um trabalho como garçom em um restaurante da cidade, o que me rendeu uma graninha extra. 


Gláuber conhecendo a Chapada Diamantina durante viagem para o Nordeste

Toda a Chapada é extraordinária. Todas as cachoeiras, grutas e trilhas. Passei 50 dias ao todo por lá, sendo que meu acordo inicial no Viela era de 30 dias. Em todo esse tempo consegui conhecer tudo o que queria. Mas a melhor experiência que tive fui ter feito a trilha do Vale do Pati, sozinho (não aconselho ninguém a ir sozinho). Foram quatro dias e três noites atravessando o Parque Nacional, dormindo e comendo nos alojamentos que os moradores ofereciam e aproveitando o silêncio e a tranquilidade da natureza.

Deixei a Chapada Diamantina depois do meu aniversário em março. Já havia outro hostel em Salvador me esperando, mas antes de chegar lá passei por duas cidades no interior para ver dois grandes amigos e depois fui visitar parte da minha família na minha cidade natal. Fazia 10 anos que não ia lá. Foi bom rever o local onde passei quase todas as minhas férias na infância.

Peguei um avião em Ilhéus e voei até a capital baiana. Por lá fiquei no Ligando Energias. As donas eram duas argentinas que moravam há oito anos em Salvador, por conta disso elas recebiam muitos voluntários argentinos. Fiquei 17 dias e nossa “casa” era uma mistura de Argentina e Brasil bem engraçada. O lugar ficava a poucos metros da praia do Porto da Barra e quase todos os dias ia lá tomar um banho de mar.

Essa era minha segunda vez em Salvador, a primeira vez foi em um carnaval cinco anos atrás, que passei poucos dias. Agora era hora de conhecer melhor.

Fui no Pelourinho ver um ensaio de batuques e muitas vezes imaginei as histórias que li de Jorge Amado acontecendo ali. Falando no escritor, não podia deixar de conhecer a casa em que ele morou no Rio Vermelho. 

Outra boa experiência são shows de jazz que acontecem no Solar do Unhão. Chegar cedo para ver o pôr-do-sol é uma boa. Fiz também uma visita a um terreiro de Candomblé para conhecer melhor algumas coisas dessa religião.

2. Sergipe

Terminado o período que havia combinado com as donas do hostel, era hora de seguir viagem. A próxima parada foi Aracaju. Cheguei lá por um carona que consegui no BlaBlaCar e fiquei na casa do Tiago, que conheci através do Couchsurfing. Fiquei na casa dele por quatro dias, uma passagem rápida, mas tive tempo de conhecer o interessante Museu da Gente Sergipana e a Orla do Atalaia.

Em Aracaju, me tornei um Expert da Worldpackers e comecei a receber dúvidas de pessoas sobre o funcionamento da plataforma e a escrever alguns artigos para o site. Com isso, foi possível fazer um dinheiro extra que me ajudou muito por todo o restante da viagem.

3. Alagoas

Segui subindo a região e, depois de Aracaju, cheguei em Maceió. Aqui, peguei minha primeira carona na estrada dessa viagem. Nada de aplicativo, era hora de usar o dedão mesmo (pra quem se interessar esse artigo aqui da Kami, é um bom manual). Consegui chegar no meu destino depois de ter recebido ajuda de cinco pessoas.


Praia em Alagoas

Fiquei na capital de Alagoas por um mês como voluntário no Meu Hostel, e contei tudo em outro artigo que escrevi. Posso adiantar que as praias mais bonitas que vi estavam aqui.

4. Pernambuco

Saindo de Maceió fui de novo para a estrada tentar pegar carona para Recife, onde já tinha mais um lugar confirmado. Essa foi a carona mais fácil de consegui da minha vida, apenas 20 minutos depois que cheguei em um posto na saída da cidade consegui a ajuda de um caminhoneiro. 

Até aí tudo bem. O grande problema que esse foi o dia que começou a greve dos caminhoneiros que parou o Brasil inteiro e, já que eu não leio notícias, só fiquei sabendo quando cheguei ao posto. Durante todo o trajeto fui com medo de ter alguma parada no caminho. Para minha sorte, só estava parado nos últimos 5 km da entrada da cidade. 

Agradeci ao Seu Manuel, o caminhoneiro que me ajudou, e resolvi andar aqueles quilômetros finais. Eram por volta de 12h, o sol estava muito forte, a mochila parecia estar mais pesada do que nunca, mas para minha sorte consegui mais uma carona que me deixou bem próximo a uma estação de ônibus.

Recife era uma das cidades que tinha muita curiosidade em conhecer e por isso passei quase um mês no Azul Fusca Hostel. A localização fica no bairro do Recife Antigo, um dos pontos locais mais turísticos por conta de toda sua importância histórica. 

É no Recife Antigo que está o Marco Zero, o Paço do Frevo e o Cais do Sertão, um museu dedicado a Luiz Gonzaga e ao sertão. Em alguns domingos do mês o bairro é completamente fechado e ocorre ali a Feira do Bom Jesus e os ensaios dos grupos de Maracatu. Uma das melhores experiências que tive na cidade foi num desses domingos. Comecei o dia assistindo aos ensaios e terminei cantando Wando em um karaokê.

Vale a pena também conhecer a Praia de Boa Viagem e descobrir que ninguém entra na água por conta do medo dos tubarões (é melhor ir à noite, de preferência em noite de lua cheia). Uma boa opção de praia é ir até Porto de Galinhas que está a duas horas de viagem. Próximo de Recife está também a cidade histórica de Olinda. 

Para terminar, pude ainda ir ver meu time no estádio do Sport e acompanhar o Festival de Cinema de Pernambuco em um cinema histórico.

Durante este período, tive notícias não muito boas de casa. Precisavam de mim. Decidi então que teria que encurtar minha viagem. Não tinha desistido do meu objetivo, mas teria que ficar pouco dias no restante das cidades que eu iria passar. Não foi fácil recusar alguns convites que chegaram pela Worldpackers.

Agora entra a parte que usei muito o Couchsurfing e contei com a ajuda de muitas pessoas, que depois viraram grandes amigos e amigas.

Ainda em Pernambuco, era época de São João no final da minha estadia em Recife. Fui então a cidade do maior São João do mundo, Caruaru. Consegui uma carona pelo BlaBlaCar e fui recebido por duas ótimas pessoas, Genison e Michael, que me ajudaram muito e foram minhas companhias durante os dias que passei por lá. Foi uma das festas populares mais bonitas que já vi.

5. Paraíba

Para chegar a João Pessoa usei mais uma vez o aplicativo de carona e fui recebido pelo Guga, um cara extraordinário que tinha um espírito solidário muito grande. Em Jampa conheci o centro da cidade, a Estação Cabo Branco, a Ponta de Seixas, que é o ponto mais oriental das Américas, e a de praia de nudismo chamada Tambaba, que fica em uma cidade vizinha. Deu para sofrer também com um dos jogos do Brasil na Copa do Mundo acompanhado do Guga e de muitos amigos dele. 


Durante minha viagem para o Nordeste, pude conhecer museus incríveis 

6. Rio Grande do Norte

No Rio Grande do Norte, passei por duas cidades, Pipa e Natal, e fui recebido pelo Davi e João. A primeira é um local bem pequeno, bonito e com um clima de cidade de mochileiros. A Baia dos Golfinhos é a praia com mar bem calmo e onde é possível ver golfinhos saltando para fora da água. O Chapadão é outro ótimo lugar de Pipa.

Natal já é uma cidade grande com boas praias. Minha passagem foi bem rápida pela cidade, gostaria de ter ficado um pouco mais. Mesmo assim deu tempo de conhecer o Parque das Dunas e a Orla de Ponta Negra.

Nessa parte da viagem as coisas começam a ficar um pouco mais difíceis. Todas as cidades entre Salvador e Natal ficavam muito próximas umas das outras e por isso pegar carona seja na estrada ou por aplicativo era fácil. De Natal a Fortaleza são quase 600 km e muitas horas de viagem, o que dificultava conseguir uma carona. Todos os próximos destinos seriam assim e as coisas ainda ia dificultar um pouco. Por sorte consegui uma carona pelo app, de Natal a Fortaleza

7. Ceará

Em Fortaleza, tive a parte mais difícil desse mochilão pelo Nordeste, mas primeiro vou contar o que vi por lá.

Conheci o cinema São Luiz, um local bem tradicional no centro da cidade, o Mercado Municipal, onde estão todos os artesanatos locais e o Centro de Cultura Dragão do Mar. Pedi a Pedro, meu host na cidade, um bom lugar para comer Buchada de Bode, um dos pratos mais típicos dessa região do país. Por recomendação dele, fui a um lugar com um nome sensacional chamado “O Imperador da Panelada”. Ainda tive tempo de ver o pôr-do-sol na Praia de Iracema e passar uma tarde em baixo de um coqueiro na Praia do Futuro.

O episódio ruim na cidade foi por conta de uma lesão antiga que tinha no ombro e se agravou um pouco mais. Meu ombro saiu do lugar e tive que ir para o hospital colocar de volta. Contei com a ajuda de Pedro e todo mundo que estava na casa dele. Tive que comprar uma tipoia para imobilizar o local e o médico disse para ficar assim por 15 dias. O problema era que em oito ou dez dias eu iria começar a fazer a travessia dos Lençóis Maranhenses, algo que eu estava me preparando desde de Recife.

Por conta da lesão e de não ter encontrado nenhuma carona, tive que comprar uma passagem de ônibus para Teresina. Mal conseguia colocar minha mochila nas costas por causa da lesão.

8. Piauí

Teresina foi o momento de me recuperar e para isso contei com uma ajuda muito grande da Maura, que me recebeu e me mostrou a cidade. Ela, a mãe dela e a irmã, cuidaram de mim como se fosse alguém da família.

Muita gente me perguntava o motivo de ir a Teresina já que ali não tinha praia e não era um lugar muito turístico, sempre respondia que eram esses os motivos. Às vezes eu gosto de sair do roteiro de turista e conhecer lugares comuns. Além disso, estava em final de viagem e meu orçamento começava a ficar apertado. Era preciso fazer algumas escolhas.

Mesmo não tendo muitos lugares turísticos, a capital do Piauí tem coisas interessantes. A Ponte Estaiada e o Parque do Encontro dos Rios são dois bons lugares para conhecer, além dos bares espalhados por todo o município e toda a receptividade das pessoas por lá.

No dia e na hora da final da Copa do Mundo consegui uma carona por meio de um grupo do Facebook para São Luís. Chegava assim a minha última capital, mas não no último destino.

9. Maranhão

Logo que cheguei, fiquei por duas noites na casa de Deyse e Fabian, um casal que estava com uma viagem marcada de moto pela América do Sul. Conversamos muito sobre viagens e pude dar muitas dicas para eles. Também nesses dias fiquei somente preparando minhas coisas para ir aos Lençóis Maranhenses.

A travessia dos Lençóis Maranhenses daria um artigo somente para essa história. O que posso dizer é que andei 70 km durante cinco dias e quatro noites. Fui sozinho, mais uma vez, mas ao longo do caminho tive sorte de encontrar alguns grupos com guias. Apesar de não ter ficado andando com eles, era bom saber que havia mais gente fazendo o mesmo que eu.

Durante a travessia, dormi na casa dos moradores que moravam dentro do parque e ofereciam acomodações. Passei esses cinco dias dormindo em redes e sem nenhum sinal de telefone. Só havia experimentado uma paz parecida no Vale do Pati. Sem dúvida, essa foi uma das experiências mais desafiadoras que tive na vida.


Lençóis Maranhenses, uma das mais lindas paisagens que vi durante minha viagem pelo Nordeste

Depois, voltei para São Luís e fiquei na casa de outro host, o Marcelo. Num domingo fomos para uma feirinha no centro histórico de São Luís. Lá consegui conhecer muitas ruas e prédios históricos, como o Palácio dos Leões. Por sorte também vi o espetáculo do Bumba-meu-Boi, uma das manifestações culturais mais tradicionais do estado. Marcelo me levou depois para conhecer a orla da cidade.

Passado mais dois dias, entrei em um voo que duraria o dia inteiro até Montes Claros, minha casa, e terminaria esse mochilão pelo Nordeste no dia 25 de julho.

Gastos

Uma das principais dificuldades para uma viagem, sem dúvida nenhuma, é a questão dos gastos. Muita gente acha que para viajar é preciso ter muito dinheiro. Acredito que com a economia compartilhada e o turismo colaborativo, isso está mudando. Aqui mesmo, no site da Worldpackers, a vários outros relatos e dicas falando sobre como viajar barato.

Nesse vídeo o Cadu deu algumas dicas de como viajar sozinho pelo Brasil:

Nesse mochilão pelo Nordeste, gastei ao todo R$ 5.500 (o que dá R$ 916 por mês) e 56.600 milhas com dois voos. Minha viagem não teve nenhum tipo de luxo, pois não acho isso muito importante, sempre cozinhava minha comida quando podia ou comia em restaurante que as pessoas locais comem. Além disso, gastei com hospedagem somente nos trekkings que fiz. Todas as pessoas que me ajudaram foram muito importantes para essa viagem ter dado certo. Sou eternamente grato a todas elas.

Conclusão

Quando estava partindo de volta para casa a ficha ainda não tinha caído. Tinha conseguido passar por todos os estados do Nordeste, voluntariado em quatro lugares diferentes, viajando de carona por muitos lugares, ter conhecido pessoas que solidariamente me ajudaram e tudo isso em 174 dias. A única coisa que conseguia pensar era como eu era um sujeito privilegiado e com sorte por ter tido essa experiência.

Viajar pelo meu próprio país foi uma experiência marcante. Foi entender que existe vários outros Brasis em um só Brasil. Foi poder perceber as semelhanças e diferenças de um lugar para o outro, seja nos costumes, na comida ou no jeito de falar. Foi entender a riqueza cultural e a diversificação de um país tão grande. Nunca foi somente para ver lugares bonitos e tirar fotos.

É diferente viver em um lugar, como eu vivi em alguns, e somente passar e conhecer os lugares turísticos, como eu também passei. Quando estava em um lugar por um período maior de tempo, começava a chamar os hostels que era voluntário de casa. A identificação com o local é sempre uma coisa muito forte é por conta disso as despedidas são difíceis. Sempre ficam excelentes amizades.

Foi difícil resumir e escolher tantas coisas que eu vivi, para escrever esse artigo. Não foram poucas as consultas que fiz ao meu diário de viagem. Poderia ter escrito alguma coisa mais heroica, mas seria um pouco falso. Primeiro que essa foi uma viagem de uma pessoa comum que se preparou e gosta de fazer esse tipo de viagem. E segundo, não faltaram momentos que tive medo, desde o primeiro dia. Fui aprendendo a lidar com isso, me adaptando a mudar de local, descobrir uma nova realidade e a confiar nas pessoas. Gosto da ideia que diz que coragem não é a ausência de medo e sim o enfrentamento deles.


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Glauber Vinícius

Worldpacker a quase dois anos, sempre fazendo de tudo um pouco e ajudando a quem precisa

Out 01, 2018


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