Eu estava sem esperança quando conheci a Worldpackers

Uma conversa sobre como o trabalho voluntário surgiu numa época difícil da minha vida. E como encontrei esperança no meio de ansiedade, desemprego e problemas familiares.


49584313a66bc93b8b2645b9ee7864b2

Luan

Dez 16, 2019

Brasileiro numa jornada interior, 29 anos, jornalista, mochileiro.

minha vida mudou com a worldpackers

Imagine que somos amigos e estamos sentados no sofá de sua casa. Você preparou café e comprou pãezinhos. Agora, se você me permitir, eu quero abrir meu coração.

Eu não sei quando começou, mas de repente eu me encontrei sem esperança. Eu morava em São Paulo, acordava todos os dias sem ânimo para viver e nada me deixava feliz.

Várias coisas estavam acontecendo naquela época. Mas eu não conseguia pensar, encontrar solução e muito menos encarar minha realidade. Eu só queria dormir, comer e voltar a dormir.

Depois de quase um ano assim, eu conheci a Worldpackers. Então eu soube que existia intercâmbio de trabalho e fui capaz de vislumbrar meu propósito de vida naquele momento.

Mas antes de falar sobre como tudo começou a mudar, eu preciso te contar alguns acontecimentos importantes daquele período.

1. Problemas familiares

Em 2015, eu fui morar em outro estado porque o convívio familiar se tornou impossível. É bastante complicado ser o filho gay de pais conservadores e religiosos. Então, eu deixei Manaus e fui morar sozinho em São Paulo, uma cidade completamente desconhecida. Fiz amigos e experimentei a sensação de liberdade que eu precisava. Mas as memórias ainda me perturbavam.

Eu pouco falava com meus pais. Eles me ajudavam financeiramente e sou muito grato por isso. Mas não conversávamos, eles não sabiam o que acontecia comigo e eu me sentia totalmente sozinho. Sempre que eu os visitava em Manaus, eu voltava de lá ainda mais triste. Não tinha abraços, conversas e todo aquele carinho que filhos esperam receber (aliás, por que esperamos tanto isso de nossos pais?).

Crescer com essa sensação de abandono afetivo é uma droga. E parecia que toda minha vida girava em torno do sentimento de não-aceitação que eu tinha por mim mesmo.

2. Mãe doente

No começo de 2017, minha mãe descobriu que estava com câncer em estágio avançado. Na época eu tinha pedido demissão e estava apenas fazendo alguns freelas. Sem perceber, comecei a me sentir culpado por não voltar para Manaus. Por mais infeliz que eu estivesse em São Paulo, eu sabia que voltar para casa dos meus pais seria muito pior. Lá eu teria que esconder minha sexualidade de novo, aceitar as imposições religiosas e viver uma mentira. Em São Paulo eu tinha muitos problemas, mas não precisava fingir ser outra pessoa.

A doença se manteve estável até meados de 2018. Mas em agosto do mesmo ano, após 13 meses de quimioterapia, os médicos a desenganaram. Voltei para Manaus. Três meses depois, minha mãe faleceu. Ainda não sei descrever os dias que vivi ao lado dela, mas prometo que vou voltar a falar sobre isso ao longo desta conversa.

3. Pedir demissão parecia a solução

Durante os três anos que morei em São Paulo, eu pedi demissão seis vezes. Eu não conseguia encontrar motivação para acordar pela manhã e sair de casa para trabalhar. Embora realizasse minha função com responsabilidade, a cada 15 minutos eu saía do escritório para chorar ou simplesmente ficar no banheiro vendo a hora passar. Por que insistir em um emprego que não faz sentido? O problema é que eu estava procurando o trabalho perfeito, achando que isso resolveria minhas angústias.

Então eu pedia demissão. Um pouco tempo depois, o próximo emprego me deixava novamente infeliz e desmotivado. Então eu abandonava o trabalho mais uma vez.

4. Vida social não existia

Terminei um relacionamento e me afastei dos meus amigos. Me isolei dentro de casa. Minha vida social se limitava às visitas de alguns amigos mais íntimos. Eu não queria ver pessoas, lugares muito cheios me deixavam aflito e eu sentia vergonha de falar sobre mim. Quando as pessoas perguntavam se eu estava bem, eu mentia ou não respondia. Eu queria me esconder de todo mundo. A pior coisa era precisar me explicar por que eu estava tão infeliz, sem ânimo, sem esperança e sem vontade de viver. Nem eu sabia.

5. Eu me sentia sem futuro

No começo de 2018, surgiu uma proposta de trabalho. Fiquei animado pela primeira vez em muitos meses. Eu estava cheio de dívidas e acreditava que ali estava minha solução. Participei de todas as etapas do processo seletivo e comecei a esperar pela resposta.

Abrindo um parênteses: Nessa época eu me tornei membro verificado da Worldpackers. Eu tirei meu Id Jovem e ainda fazia alguns trabalhos como freelancer. Então decidi viajar. Procurei um anfitrião que me oferecesse conexão com a natureza. Assim fui parar na Ecovila Vrinda Bhumi.

Quando eu estava voltando do meu primeiro intercâmbio de trabalho, chegou o e-mail do RH informando que outra pessoa havia sido escolhida para a vaga.

Bom, você ainda está aí?

Se estiver, agora eu quero te contar como tudo começou a mudar.

Eu decidi pensar em mim pela primeira vez.

Em abril de 2018, eu escolhi fazer alguma coisa pela minha saúde. Eu não voltaria a insistir nos mesmos empregos, desisti de tentar agradar minha família e encarei o medo de ser julgado.

Comecei a planejar meu mochilão pelo Brasil. No começo, eu teria apenas alguns freelas, mas acreditei que as coisas poderiam melhorar. Fiz um roteiro, comecei a procurar os anfitriões da Worldpackers e estudei a melhor forma de viajar com Id Jovem.

No entanto, meus planos foram interrompidos. Em maio de 2018, minha mãe teve a primeira crise severa. E pouco tempo depois eu decidi voltar para Manaus. Os médico disseram que não havia o que fazer. A família deveria se preparar.

Posso dizer que foram os três meses mais dolorosos da minha vida. Eu nunca imaginei que precisaria ajudar minha mãe a ir ao banheiro, segurando-a pelo braço e com muito medo de não aguentar. Passei várias noites acordado ao lado dela, ouvindo seus gemidos. É algo muito difícil. Naquele exato momento, parece que o sofrimento vai ser eterno.

Depois que minha mãe se foi, eu percebi que nada mais me segurava. Eu poderia fazer qualquer coisa sem medo de desapontá-la. Fique mais três meses em Manaus, fazendo companhia para meu pai e irmão. Passamos o Natal e Ano Novo juntos.

Em fevereiro de 2019, eu voltei para a estrada.

A Bahia foi meu primeiro destino.

Quer saber? Minha vida mudou completamente.

Eu não estou dizendo que meus problemas se foram. Eu ainda enfrento meus leões, tenho diversas lembranças que me assombram e continuo suscetível à ansiedade e depressão.

Minhas questões familiares ainda existem. Falo com meu pai esporadicamente e nossas mensagens são breves e rasas. Quando nos encontramos, falamos sobre todas as pessoas, menos sobre nós mesmos. Mas hoje começo a aceitar que nossa relação funciona assim. O amor que meu pai sente por mim é real, ainda que não seja como eu esperei a vida toda (mais uma vez, por que esperamos tantas coisas de nossos pais? Eles são pessoas!).

E claro... tenho outros receios e preocupações de "gente grande". Ás vezes tenho medo de ficar sem dinheiro, de acabar sozinho, de não ter ajuda se algo urgente acontecer, afinal estou viajando sem companhia. Conheço pessoas maravilhosas por onde passo, mas não sei poderei contar elas em determinadas situações. É tudo incerto. 

A diferença é muito simples: eu parei de brigar comigo. Parei de tentar controlar os acontecimentos, de sofrer por coisas que não consegui ou talvez nunca se realizem. Estou tentando viver o presente com atenção e gratidão.

Viajar me trouxe a serenidade necessária para enxergar minha vulnerabilidade com paciência e até bom humor. Dentro de um escritório, vivendo daquela forma, isso poderia não acontecer neste. Eu precisei sair, respirar, me reconectar ao sol, ao mar, à terra para me sentir vivo de novo. 



Eu tirei aquele peso dos ombros. É isso. Me sinto mais leve, mais preparado para viver um dia de cada vez e deixar que as coisas sejam como são, sem que eu tente interferir tanto.

Hoje, eu acredito que propósito de vida não depende de um resultado, alcançar um objetivo, realizar um sonho ou determinar uma missão. Meu propósito de vida se tornou apenas viver. De maneira honesta, consciente e sem cobranças.

Quem sabe um dia eu consiga compartilhar com você as mudanças que percebo no meu dia a dia. São coisas simples, mas que tornam minha vida mais leve e saudável.

Bom, acho que é isso. Gratidão por meu ouvir. Se você quiser me contar sua história, será uma honra.

Torço para que você encontre o seu caminho.

Axé.


49584313a66bc93b8b2645b9ee7864b2

Luan

Dez 16, 2019

Brasileiro numa jornada interior, 29 anos, jornalista, mochileiro.


Deixe seu comentário aqui

Escreva aqui suas dúvidas e agradecimentos ao autor