Mulheres que viajam sozinha e a admirável coragem delas

Alguns pensam que é um ato solitário ou ainda que somos corajosas por fazê-lo. A verdade é que nossa sede por liberdade e vontade de conquistar o mundo é o que nos move a viajar sozinhas, ainda que alguns obstáculos como falta de segurança tentem nos impedir, eles apenas nos fazem mais fortes.

A última pesquisa feita pelo Ministério do Turismo em 2017 mostra que 17,8% das entrevistadas desejam viajar sozinhas, é o maior índice desde 2016. Entre os homens, o percentual é bem menor: 11,8%.

Aqui na Worldpackers os dados também confirmam que nós estamos em maior número quando se trata de viajar livre por aí: as mulheres representam 60% dos usuários da plataforma. Mera coincidência? Eu creio que não.

“Você é corajosa!” Essa é a frase que mais escuto por aí apenas por viajar sozinha e exercer meu direito de liberdade. 

É interessante observar que quando um homem faz o mesmo é visto de maneira diferente, como aventureiro e desbravador. O fator coragem é inerente a eles, enquanto para nós mulheres a coragem é vista como algo raro e por isso creditam a isso o nosso ato de viajar. Sabem de nada, inocentes!

Quantas vezes, especialmente na América Latina, ouvi pessoas me dizerem com cara de espanto “você está viajando sozinha?” ou ainda pior “por que você veio para cá? Tem namorado aqui?”, como se o único motivo para fazer uma mulher deixar seu país fosse para ir atrás de um homem.

Eu não viajo sozinha porque sou corajosa, faço isso porque sempre, desde muito nova, tenho desejo de ser livre, de ser independente, poder cuidar de mim mesma, aprender e conhecer o máximo de coisas possíveis e principalmente de não ter que dar satisfação alguma para ninguém do que faço ou não faço da minha vida.

A cada nova viagem sozinha me sinto mais forte e capaz de fazer e realizar qualquer coisa que tiver vontade. Isso tudo é muito poderoso! Poder esse que socialmente sempre foi dado aos homens desde que nascem, enquanto nós mulheres temos que correr atrás para conquistar-lo.

Com certeza essa é uma das razões de estarmos em maior número entre os viajantes, pois temos uma necessidade latente que para eles já é uma realidade, estejam onde estiverem, sozinhos ou acompanhados.

1. Falta de segurança é nossa maior inimiga

No mundo machista que vivemos é duro ser mulher todos os dias, quando se viaja sozinha não é diferente. Nosso direito de liberdade é limitado muitas vezes por questões de segurança que fazem muitas desistirem no meio do caminho, nem mesmo tentar, ou ainda viajar para se isolar em lugares onde “não há perigo”.

Infelizmente, quando viajamos sozinhos estamos mais vulneráveis, e quando se trata de mulheres é ainda pior. Somos vistas como alvo fácil e por isso é preciso estar muito atenta a tudo. Não me refiro aqui a questões rotineiras de segurança, como cuidados com documentos, dinheiro e cartões, ou dar informações pessoais a estranhos, pois são recomendações a todos os tipos de viajantes.

Falo sobre assédio e outros crimes sexuais pelo fato do nosso corpo ser visto com um bem a ser roubado por qualquer um. Embora muitos pensem que só corremos esses riscos quando decidimos ir a países com religião ou cultura diferentes da nossa, isso é uma realidade dura e mais comum do que se imagina. Acontece a todo momento, em qualquer lugar.

Os piores casos de assédio que já sofri aconteceram em grandes centros urbanos, em cidades muito populares entre viajantes, como Londres e São Paulo. Olha que já vivi na Turquia e no Marrocos, lugares onde são considerados como perigosos pela maioria.

Mas como sobreviver a tudo isso e seguir nossa vocação por liberdade? 

Mulheres que viajam sozinhas: Marrakech, Marrocos, Fev 2018: apreciando a beleza de ser livre.

2. Desistir não é uma opção

Ainda segundo a mesma pesquisa do Ministério do Turismo, a maioria (71,4%) prefere se deslocar de avião, meio de transporte considerado mais seguro para mulheres sozinhas. Outras 19,3% vão de carro e 9,3% de ônibus, veículos em que elas estão mais sujeitas a situações de perigo.

Importante observar aqui como em geral seguimos o caminho de evitar fazer algo para não correr perigo. Tenho visto muitos artigos sobre o tema com dicas para mulheres garantirem sua segurança quando viajam e todas elas são recomendações para que abram mão da liberdade de ir e vir.

Evitar sair sozinha à noite, não usar roupas curtas e até mesmo usar anel de casamento falso para fingir não estar só estão entre as dicas mais recomendadas. Já repararam que até as listas de cidades ou países seguros para mulheres viajantes na maioria são lugares mais isolados?

Mais uma vez estão tentando nos privar da nossa liberdade de fazer e ser o que quisermos. Do que adianta viajar sozinhas se não podemos ser livres e nem mesmo escolher para onde vamos?

3. Minhas dicas para quem mulheres que viajam sozinhas sem abrir mão de ser livre

Enquanto o mundo não evolui, não há outra maneira que não nos proteger ao máximo. Para isso, não precisamos abrir mão da nossa liberdade e sim aprender a nos defender e a superar esses obstáculos, para resistir e seguir em frente mais fortes do que nunca.

  • Informações pessoais

Não vacile! Cuidado ao compartilhar detalhes da sua vida com qualquer um, principalmente em situações em que se sente perdida. Toda ajuda é bem vinda, mas para pedi-la não é preciso abrir sua vida para estranhos. Fale só o essencial.

  • Meio de transporte

Use apenas serviços de transporte oficiais, seja público ou privado. Assim, em qualquer situação de risco, você poderá reclamar e pedir ajuda diretamente para empresa, inclusive para dar mais detalhes à polícia se preciso.

  • Diferentes culturas

Pesquise bem sobre a cultura da cidade e país antes de viajar, em alguns lugares é importante seguir normas culturais específicas. Cada escolha uma renúncia, nesses casos é só se adequar e respeitar.

  • Legislação

Se possível, também busque se informar sobre as leis do país, no que diz respeito aos seus direitos como cidadã, estrangeira e mulher. Assim fica mais fácil para se defender e argumentar com as autoridades quando for preciso.

  • Contatos úteis

Tenha com você todos os contatos de emergência: Embaixada do Brasil, polícia, bombeiro do lugar em que estar você está hospedada, amigos que vivam na mesma cidade e que possam ajudar em situações de emergência.

  • Celular com internet

Principalmente para quem está fora do país. A primeira coisa a fazer quando chega em uma nova cidade é comprar um cartão pré-pago com dados de internet suficiente para o período que você vai ficar.

É bem fácil conseguir com qualquer operadora e não é caro. Investimento fundamental para sua segurança, seja para se localizar no mapa ou pedir socorro.

  • Aprenda palavras básicas do idioma

Para quem vai a países onde não fala o idioma local, é importante aprender algumas coisas básicas, não só para ser simpático, mas para pedir ajuda ou se defender em situações de risco.

  • Krav magá

Técnica de combate muito usada por quem quer aprender defesa pessoal e ajuda não só para proteção física mas também trabalhar o seu emocional. Muitas academias de luta têm aulas exclusivas para mulheres, procure uma na sua cidade.

  • Denuncie

Precisamos de números das ocorrências para que o mundo entenda o que acontece. Infelizmente, a maioria de nós ainda tem medo de falar com as autoridades, inclusive por muitas vezes terem um posicionamento machista de não levar a sério a situação ou mesmo culpar a vítima, mas é necessário insistir.

Acredito que esse é o caminho que devemos seguir para superar todos os obstáculos no percurso de viajar sozinha. Resistam! Enfrentem! Sigam em frente! Uma vez que se cruza a linha de chegada da liberdade, é um caminho sem volta, vocês não vão se arrepender de serem mulheres que viajam sozinhas.


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Josane

Two years ago I left Brazil to live around the world. I've been to Colombia for 6 months, now I'm...

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Ago 21, 2018


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