worldpacker-na-palestina

Com a popularização do intercâmbio de voluntariado, muito se questiona atualmente a respeito do real impacto – positivo e negativo – que este tipo de viajante gera na comunidade onde atua.

De boas intenções, os aeroportos estão lotados; será, porém, que o voluntário faz bem, de verdade, para o mundo? Quais os limites éticos de sua atividade?

Assumir o papel de neocolonizador branco ocidental que chega com a fórmula mágica para salvação dos “pobres selvagens indefesos” apenas reproduz o comportamento que os levou às dificuldades que enfrentam hoje.

O voluntário deve ser um agente facilitador, disposto a trocar experiências e cultura – e, por trocar, entende-se que a via é de mão dupla e que, para que o outro se abra, é preciso estar preparado para abrir-se também.

Acima de tudo, o voluntário deve renunciar ao papel de protagonista em favor daqueles a quem se propõe a ajudar, oferecendo a eles a rara possibilidade de falar pela própria voz.

Em outras palavras: voluntário não é um herói e o voluntariado não vai resolver os problemas do mundo.

A ajuda humanitária alivia o sofrimento dos mais vulneráveis, mas não reverte a lógica da vulnerabilidade dessas pessoas.

Trata dos sintomas, mais do que da causa.

Ao criar o Trip Voluntária, busquei ir além do assistencialismo, e utilizar o intercâmbio de voluntariado para promover tolerância e respeito, por meio especialmente da quebra de estereótipos de povos e culturas.

Foi por isso que, depois de três viagens à África com o intuito de mostrar a diversidade daquele continente, em contraste com sua imagem ligada à miséria e vida selvagem, veiculada pela mídia de massa, embarquei para um voluntariado em Ramallah, capital administrativa da Palestina.

O objetivo, agora, era ouvir dos próprios árabes muçulmanos, o que eles tinham a dizer a respeito de terrorismo, radicalismo religioso e conflito com Israel.

 Não é perigoso?

As perguntas são inevitáveis.

Ao saberem meu destino, as pessoas reagem com:

  • Não é perigoso?
  • Você não tem medo de tomar um tiro?
  • E se acontecer um atentado onde você estiver? Cuidado com o homem-bomba! – esta última carregada da indigesta ironia que caracteriza as piadas machistas, racistas ou homofóbicas do “tio do pavê”.

O que explodiu, na verdade, pouco tempo depois de pisar no Oriente Médio, foi um dos mais resistentes estereótipos daquela região: o de que não é seguro estar ali.

A Palestina pode ser extremamente perigosa para os palestinos.

Estes sofrem hoje com a colonização encampada pelo governo israelense e todos os seus efeitos colaterais:

  • Segregação;
  • Discriminação;
  • Violações de direitos humanos;
  • Perda de terras, de liberdade, de esperança e de vidas.

Já para estrangeiros, o local é seguro. Extremamente seguro.

A ponto de caminhar pelas ruas, sob a luz do Sol ou da Lua, com dinheiro no bolso, celular na mão, câmera fotográfica no pescoço, acompanhado ou sozinho, sem preocupação alguma.

Os árabes são respeitadores, carinhosos e hospitaleiros, adoram conversar e receber bem os visitantes.

Não era difícil eu voltar para o hostel com mais coisas do que eu havia saído: era comum ganhar café, falafel e morangos enquanto caminhava pela cidade.

worldpackers-na-palestina

 Não é radical?

Não menos frequente é ser questionado a respeito do “radicalismo” dos muçulmanos.

Para começo de conversa, temos que lembrar que árabe e muçulmano não são sinônimos.

Árabe é o povo, muçulmano é o que escolhe o Islã como sua religião.

Nem todo árabe é muçulmano e muito menos para ser muçulmano é preciso ser árabe.

O que responder, então, quando me perguntam se uma mulher pode andar sozinha por lá, se ela pode mostrar o rosto, se não precisa sair de burca ou se eles aceitam outras religiões?

Algumas informações são importantes: o Fatah, partido do presidente palestino Mahmoud Abbas, é laico, portanto não há imposição de uma religião de Estado.

Fiéis de outras crenças são aceitos e muito bem recebidos na Palestina.

Existe inclusive uma cidade cristã na Cisjordânia, chamada Taybeh, famosa por sua cervejaria e sua vinícola – que, aliás, produzem bebidas deliciosas!

A exceção, talvez, fique por conta dos judeus, que podem sofrer alguma discriminação por conta da opressão de Israel.

A grande maioria dos palestinos faz questão de frisar que o Islã não prega a violência, a discriminação nem o ódio a outras religiões, e que condena o terrorismo ou qualquer outro ato contra uma vida humana.

O muro que habita em mim

Antes de atravessar, pela última vez, um dos checkpoints que separam Palestina e Israel, apaguei as fotos da viagem e excluí todos os contatos de amigos árabes de meu celular e de minhas redes sociais.

O que não poderia ser removido era o receio do interrogatório e da revista pelos quais eu passaria no aeroporto de Tel Aviv, nem a transformação que aquela viagem havia causado em mim.

Estar na Palestina – e em Israel não seria diferente, permito-me arriscar – é respirar o conflito a cada segundo.

Ele está sempre à espreita, em cada esquina, em cada comércio, em cada conversa de bar e em cada beco sem saída.

Ele salta aos olhos sempre que um caminho é interrompido pelo muro que rasga a terra sem qualquer cerimônia.

Um muro que separa dois povos acolhedores e honrados e que os ensina a temer e odiar um ao outro.

No fim das contas, é para isso que um muro é construído: para dividir, controlar e evitar qualquer contato visual que possa trazer de volta a humanidade e, enfim, fazê-lo cair, bloco por bloco, pedaço por pedaço.

Estar diante do muro me mostrou como o terrorismo pode ser perigoso e venenoso.

Quando eu falo de terrorismo, não me refiro a homens-bomba ou atentados em locais públicos.

O terror verdadeiro é promovido por aqueles que mantêm seu poder à custa da segregação, do ódio e da demonização do outro.

Estar na Palestina por quase um mês não me trouxe nenhuma conclusão a respeito do conflito entre palestinos e israelenses - pelo contrário, gerou apenas uma série de novas dúvidas e questões.

Mas uma coisa eu aprendi ali: os muros e as fronteiras nascem dentro de nós e só quando estão fortemente enraizados em nosso coração é que eles tomam forma no mundo exterior.

Escolhi ser um Worldpacker na Palestina para descobrir como eu poderia contribuir para derrubar um muro e usar seus destroços para construir pontes.

Acabei descobrindo que há um muro que habita dentro de cada um de nós - e é esse muro que precisa, urgentemente, cair.



08951906e41ed43a7b06437a9aedaad2

Gustavo

Fundador do Trip Voluntária e autor do livro "Africanamente: o que vivi e aprendi como voluntário...

+ Ver mais

Out 10, 2018


Gostou? Não esqueça de deixar Gustavo saber :-)


Deixe seu comentário aqui

Escreva aqui suas dúvidas e agradecimentos ao autor