A pergunta número 1 sobre morar fora: “por que você voltou?”

Tomei a decisão de ir morar fora por um tempo porque eu me sentia estagnado. Depois de 2 anos, a decisão mais difícil foi aceitar que era a hora de voltar.


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Allan

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Out 11, 2018

praia de bondi em sydney na Australia

Atravessar a rua de casa e estar nessa praia.

É como eu costumo falar da vida que levei na Austrália. A frase e a foto sempre representaram bem os quase dois anos — entre viagens e mudanças — que passei no país. Ainda assim, a descrição sempre me pareceu insuficiente perto de tudo que vivi nesse período.

Dizer que me sinto agradecido é pouco quando penso na chance que tive de viver em um lugar desse por tanto tempo. Principalmente quando lembro do jeito como fui recebido, dos amigos feitos, das oportunidades dadas para morar ou trabalhar, dos lugares que pude conhecer e de tudo que a experiência me trouxe como aprendizado.

E, de todas as dúvidas que poderiam surgir sobre esse tempo morando fora, essa continua sendo a principal:

“Por que você decidiu voltar?”

Talvez o melhor jeito de (tentar) explicar o porquê de eu ter voltado seja compartilhando os motivos que me fizeram ir.

De volta em 2010, era meu último ano de faculdade e eu tinha acabado de entrar num novo emprego. Eu tinha 20 anos e, depois de passar por um trauma pessoal, lembro de ter me questionado pela primeira vez sobre o tipo de vida que eu vinha levando naqueles últimos tempos.

Ao me pôr contra a parede, dei-me conta de que muitas das verdades que eu havia tomado como absolutas não faziam mais sentido. Eu havia mudado e alguma coisa parecia estar fora do lugar.

É verdade que a rotina no novo trabalho conseguiu me ocupar o suficiente para que eu deixasse essas incertezas de lado por um tempo. Conheci pessoas talentosas, repletas de ideias interessantes e, com a ajuda delas, consegui me desenvolver e ser melhor no que eu fazia. Eu estava me aperfeiçoando, evoluindo em certos pontos, o que me confortava.

Com o tempo, porém, as lições foram naturalmente diminuindo e a visão que eu passei a ter daquele ambiente era de que, na verdade, ele não era tão diferente assim. Era muito parecido inclusive com outros que eu estava acostumado a conviver.

Ter consciência disso foi inquietante e não demorou para que uma sensação de inércia começasse a tomar conta de mim, trazendo à tona aquele mesmo vazio de antes.

Foi quando fiquei sabendo de um amigo que havia decidido ir passar um tempo fora, na Austrália. Claro que o Thiago, sempre generoso e sincero, não se incomodou em dividir comigo o que tinha dado na cabeça dele de ir viajar. Pelos papos que tivemos, era nítido que ele buscava algo (intangível, etéreo e portanto difícil de ser descrito até por ele em palavras) para preencher um vazio semelhante ao meu.

Usando as palavras do próprio Thiago, ele havia chegado ao fim de um ciclo. E o próximo passo (ou a evolução de que ele costumava tanto falar), só poderia ser dado do contato com uma experiência diferente, em um cenário inédito, formado por outras ideias e protagonizado por outras pessoas.

Ainda na pegada do mesmo discurso, ele dizia ter alcançado uma espécie de limite pessoal que o impedia de dar seu melhor. Faltava um propósito maior, uma razão que ele não tinha sido capaz de encontrar aqui. E, justamente atrás desse novo significado, ele foi para não mais voltar. Diferente de mim.

Levei mais algumas semanas refletindo sobre a partida dele, o que, inevitavelmente, acabou influenciando a minha decisão de ir também. Como eu disse, o vazio parecia ser o mesmo e em nenhum momento passou pela minha cabeça que as respostas (para seja lá quais perguntas eu fizesse) poderiam estar mais perto do que em um país do outro lado do mundo. Só fui entender depois, vivendo a minha própria experiência, que cada pessoa tem uma busca pessoal diferente e que nenhum vazio é igual ao outro.

Alguns meses depois, desembarquei na Austrália. Em uma cidade diferente da do sábio Thiago, bem menos convicto do que ele, mas sim, no mesmo país. E, por mais que o discurso dele ainda colasse, eu não tinha ideia do que eu tinha ido fazer lá.

O que mais me marcou nos primeiros meses foi perceber como a visão que eu tinha das outras pessoas era limitada.

A diversidade me chocou e, embora fosse duro de admitir, compreendi que havia passado boa parte da minha vida em uma bolha. Feita das mesmas ideias, dos mesmos confortos, dos mesmos interesses, dos mesmos relacionamentos e das mesmas verdades. Uma bolha que, embora segura, não representava nem de longe aquele mundo real que agora eu passava a experimentar. Pessoas, histórias e lugares antes inconcebíveis.

Essas descobertas começavam a me (re)moldar, mas ainda assim faltava uma base, um porquê no qual eu pudesse apoiar esses novos significados que o mundo e eu mesmo estávamos ganhando. Ainda faltava algo que justificasse eu conseguir enxergar a vida com esses novos olhos.

E lá se foram quatro meses do outro lado do mundo antes que eu desse de cara com aquilo que seria o mais próximo de um insight sobre o que eu tinha ido fazer ali. Sem que eu soubesse, ele também daria razão a minha volta quando o momento chegasse.

A luz se acendeu da maneira mais banal possível. Nasceu de uma pergunta que eu já tinha escutado tantas vezes sem nunca perceber o peso que ela carregava. Uma que abriu minha cabeça de tantas formas que até hoje tenho dificuldade em transmitir o quanto me senti provocado no dia em que aquela garota, que trabalhava comigo no restaurante, jogou-a no meu colo, sem pretensão alguma, na minha primeira semana de trabalho ali:

"- Quem é você?"

Quem eu era. Não meu nome, não meu trabalho, não de onde eu vinha. Mas quem eu era.

Como eu nunca tinha me feito aquela pergunta antes, falar que eu refleti sobre ela é mentir porque, de verdade, ela me dominou por inteiro, pulando na minha cabeça onde quer que eu fosse, no que quer que eu fizesse.

Quem é você? No que você acredita? O que te motiva? Qual o seu propósito? Qual a sua visão do mundo?

Era isso. O que havia me levado até a Austrália não era a busca por um estilo de vida diferente, por um outro lugar para viver ou por uma nova realidade. A busca era por mim mesmo.

E, assim, entre idas e vindas, casas e trampos, mochilões e viagens, reflexões e conexões, eu conseguia revelar um pouco mais sobre quem eu era — para mim mesmo. Comecei a entender minhas motivações, (re)formular crenças, libertar tantos paradigmas e reconhecer meus preconceitos. Tracei outros objetivos, enfrentando o que me incomodava, desprendendo-me do que não mais fazia sentido e abraçando essa nova etapa (e todas as outras anteriores) como o aprendizado que me fizera chegar até ali.

A cada pessoa, a cada história, a cada lugar e a cada experiência que eu vivia, eu me conhecia mais. Era exatamente isso pelo que eu havia me proposto a ir até lá: autoconhecimento.

A viagem me transformou.

“Ok. Mas por que você voltou?”

Quando decidi pelo ‘sim, eu volto’ foi porque algo me dizia que estava na hora. Chegava o momento de passar por novas experiências que, assim como eu não havia sido capaz de fazer em São Paulo dois anos antes, dificilmente conseguiria seguindo por aquele mesmo caminho.

Um novo ciclo se aproximava, junto de outras incertezas. E, assim como as dúvidas pareciam ser inesgotáveis, infinitos também eram os aprendizados que eu poderia tirar de cada uma delas.

A volta em si acabou sendo uma boa prova. Quando pisei em São Paulo, por pouco não me arrependi ao pensar que estava voltando para a mesma vida que eu tinha deixado. Demorou para cair a ficha que eu agora enxergava aquele mesmo lugar e aquelas mesmas pessoas com outros olhos. O ambiente era outro, não por causa de uma transformação externa, mas sim devido a uma mudança interna radical em mim.

Demorou um pouco mais até que eu conseguisse processar tudo o que aqueles 10 anos em 2 haviam feito comigo. Exatamente o tempo que levei para registrá-los no papel.

Escrever foi a maneira que eu encontrei para expressar todos aqueles (e esses) pensamentos. Em um exercício de autorreflexão, eu escrevia não sobre os lugares que havia visitado, mas sim sobre as pessoas que os tornavam tão vivos.

O rascunho foi ganhando forma, as histórias fascinantes de gente que conheci antes, durante e depois da viagem foram se conectando com as minhas próprias experiências e, dessa conexão de diversos universos, nasceu o meu próprio livro. Um romance batizado pela palavra grega que me acompanhou por toda aquela vida itinerante (e que, espero, vai continuar a me seguir por outras):

Eudaimonia.

A vida que vale por ela mesma; que esgota nela mesma a sua razão de ser.  — Clóvis de Barros.

Mesmo não sendo planejado, escrever um livro, ainda que imperfeito, modesto e pessoal, compartilhar o que eu havia aprendido, já era um bom motivo para ter voltado.

Confesso que grande parte da dificuldade na adaptação veio da minha relutância em querer enxergar outras possibilidades. Por isso mesmo, a primeira vez que ouvi falar da Worldpackers tornou-se lendária no meu folclore pessoal.

“Conheci uns caras malucos que estão começando um site de viagens diferente de tudo que eu já vi”, foi como o Rafa, um dos grandes amigos que ajudaram a remover o bloqueio que eu vinha criando, me apresentou o então projeto. “É sobre viagem. É sobre propósito. A galera tem tudo a ver com você.”

Quando finalmente conheci o pessoal,  deu pra sentir que havia uma essência comum no grupo e uma simplicidade por trás da suposta maluquice. Viajar, na visão deles, não era somente uma forma de visitar um país diferente, mas sim qualquer experiência capaz de te fazer olhar o mundo de outra forma.

Da experiência pessoal de cada um nasceu essa ideia, o embrião do projeto, de que é possível fazer a viagem da sua vida por muito menos do que se imagina e que existem milhares de pessoas ao redor do mundo que podem e querem te ajudar a tirá-la do papel.

O que começou como utopia transformou-se em missão: levar mais pessoas, principalmente aquelas que nunca viajaram — seja pela grana ou pelo receio — a viajar.

Muito mais do que uma startup, a Worldpackers manisfetava um propósito que falava com um universo de gente que sempre acreditou nesses mesmos valores, inclusive eu. Ela simbolizava absolutamente tudo que eu tinha vivido. Ela me representava.

Hoje completo dois anos como um desses malucos e malucas que acreditam que qualquer viagem, quando olhada dessa forma por quem a faça, é capaz de transformar a forma como um ser humano vê o mundo e a si mesmo.

Não que eu tivesse planejado nada disso, mas hoje não tenho dúvidas de que esse novo ciclo — a Worldpackers e todas as pessoas que ajudamos a viajar — são o motivo de eu ter voltado.


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Allan

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Out 11, 2018


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