Viajando como voluntária pela Europa depois dos 60


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Felipe

Out 28, 2018

Idealizador do Projeto Ruas Latinas, onde mostra a rotina do trabalho voluntário pela América Latina durante o ano de 2017 por 7 países. Acesse ...

Ouça nosso podcast com uma conversa com Sueli Godoy, mulher viajante que conta um pouco mais sobre suas experiências worldpackers depois dos 60.

Brazil Podcast em:
português

Salve, salve viajantes! Aqui é o Felipe e hoje eu vou falar com a Sueli Godoy, viajante experiente que meteu o pé no mundo depois dos 60 anos e hoje ela vai contar um pouco da história dela!

Sueli: Então galera, pra vocês que estão aí nos ouvindo. Meu nome é Sueli Godoy, eu fui jornalista, fui assessora de comunicação, sou couch, ainda pratico um pouquinho.

Depois de um tempo eu resolvi deixar a profissão de lado, me cansei dessa área e comecei então a trabalhar com coaching e só com consultoria. Estava lá, sem fazer nada e resolvi viajar.

Mas assim, a minha formação é essa. Eu sou de São Paulo, tava morando meio em São Paulo meio no interior, na cidade de Socorro, onde eu tenho uma pousadinha e é lugar também muito legal, cheio de jovens, tem esportes de aventura, então eu gosto muito de lá também. Eu já vinha lidando com essas coisas de turismo algum tempo porque a minha irmã é formada nessa área e trabalha nesse setor há muito tempo então, assim, juntou as duas coisas, vontade de viajar e um pouco de conhecimento.

Eu tenho 60 anos no momento e achava que não era viável fazer esse tipo de loucura nessa idade, mas foi muito bacana. Tá sendo ainda porque eu já fiz cinco viagens pela Worldpackers e pretendo fazer outras. Este ano acho que não, estou morando em Portugal no momento e a Worldpackers foi quem me proporcionou conhecer melhor o país sem gastar muito. Eu vim em 2016, depois em 2017 e agora estou aqui morando.

Vou voltar para o Brasil no final do ano para umas “férias” de trabalho lá na pousada. Então a galera que quiser conhecer Socorro, me procura.

Felipe: Eu vou querer ir lá, é pertinho pô!

Sueli: Então, daí o ano que vem quem sabe eu faço mais algumas viagens ainda pela Worldpackers.

Felipe: Olha que legal, você já tem mais experiências Worldpackers que eu já, por exemplo. É que assim, eu viajei pela América Latina e eu fiz sete países. Desses sete, em quatro países eu fui voluntário pela Worldpackers.

Sueli: Legal! Eu não fiz muitos países, né? Porque eu fiquei entre Portugal e França. Eu fiz três Worldpackers em Portugal e dois na França. Agora estou querendo fazer talvez na Espanha e mais algum na França porque eu quero ficar mais tempo na França para ver se eu destravo meu francês.

Felipe: Quando é que você decidiu viajar pelo mundo e qual foi a motivação que te fez conhecer tudo que você já conhece?

Sueli: Isso tudo começou no final de 2015, quando meu filho estava planejando uma viagem em 2016 para ele. Ele ia fazer uma viagem pela América Latina e pediu para eu dar um “aval” para ele em um site, aí ele conseguiria um desconto e não sei o quê e aí passou o link e era Worldpackers. Eu comecei a olhar a Worldpackers e falei “nossa, mas que site legal, né?” Perguntei se era só para jovens e ele falou “ah, sei lá, acho que não”.

Decidi me inscrever porque ele ia viajar, passar um ano fora e eu estava aposentada e não queria ficar aqui sozinha de bobeira. Já estava divorciada há alguns anos e estava querendo viajar e conhecer melhor Portugal. Entrei no site comecei a procurar, fuçar e ver as oportunidades e o que as pessoas pediam. Pouquíssimos comentavam sobre a idade, uns ofereciam refeições, outro só a hospedagem, mas eu fui mais pelo país e pela localização. Recepção era uma tarefa que eu achava que dava conta então me inscrevi para uma meia dúzia e fui aceita pela maioria. Foi muito divertido cara, porque aí eu tive que escolher, não dava para fazer tudo.

Felipe: Ah, então você chegou a se candidatar a algumas vagas diferentes ou não?

Sueli: Assim, três que acabaram rolando, tinha uma na Inglaterra que eu queria muito, mas ela só podia em um período que eu já estava comprometida com outro. Então aí no fim das contas eu tive que escolher e escolhi três:

  • Portugal: 1 mês porque era um lugar que eu queria mais ficar mesmo.
  • França: 15 dias em uma cidade e 15 dias em outra cidade.

Eu queria estudar um pouquinho do francês e principalmente conhecer o inverno na Europa. Assim, eu já conhecia porque eu já tinha morado muitos anos atrás na Inglaterra, mas Portugal especificamente eu não conhecia e tinha planos de vir morar aqui. Então, para morar, eu tinha que saber se eu aguentava o inverno. Porque na Inglaterra eu sei que eu não aguento.

Morei lá para aprender inglês, adoro a Inglaterra, mas realmente hoje em dia acho que eu preciso do verão, sabe?

Felipe: E a gente quer viajar com pouca bagagem, né? Porque vai ficar bastante tempo e aí você vai nesses lugares gelados e só a blusa já ocupa a mochila quase inteira, né?

Sueli: Aí eu fiquei um mês em Portugal, no Algarve, em um hostel muito maneiro para surfistas. Só uma galera jovem mesmo. Muito legal e eu fui bem recebida, ninguém ligou para minha idade, foi tudo muito tranquilo, cheio de surfistas que vem lá do norte. Porque para eles, 15 graus no inverno já é fantástico, é verão já.

Felipe: E me fala uma coisa, quando você tomou a decisão da primeira viagem de fazer como voluntária e tal, o que as pessoas mais próximas a você disseram sobre isso?

Sueli: Olha, a maioria falava “Nossa que legal, mas você é doida, hein?” Mas meu, vou deixar para fazer quando eu morrer?

Felipe: Você teve cinco experiências, inclusive vivendo no mesmo país em locais diferentes como worldpacker. Qual a sua percepção sobre isso?

Sueli: Ah, é super diferente. Com a Worldpackers você consegue ter uma experiência como se você fosse local mesmo, como se você tivesse morando ali. Você convive com os trabalhadores do hostel, com os donos do hostel, com a dinâmica do trabalho. Aí tem a galera dos turistas mesmo, que fazem programas que você vai junto ou não, mas enfim, você tem uma vivência não só como turista, né?

Você conhece melhor mesmo as pessoas. Mesmo os turistas, eles te veem de outra forma, né? Eles conversam, querem saber como é que é. Aí você conta que está alí de voluntário e eles perguntam como que é isso, então a gente tem uma relação muito diferente e muito mais próxima.

Aí você começa a ver também que você tem que ir no supermercado, tem que cuidar das suas coisas e não pode guardar a roupa suja para lavar em casa.

Você tem que ir lavando sua roupa e se preocupar com a lavanderia. Tem hostel que oferece, outros não. Então assim, é outra vivência, é uma coisa assim muito mais próxima, muito mais rica mesmo, de convívio, sabe? Eu gostei muito.

Felipe: Muito bom, e aí, nessas cinco experiências, você trabalhou com o quê?

Sueli: A primeira era um faz tudo. Mas era janeiro, que é um mês fraco. Então tinha que dar um apoio na limpeza, porque a senhora da limpeza ia dia sim, dia não, porque era baixa temporada. Quando a recepcionista saia tínhamos que ficar na recepção para não deixar o hostel sozinho e tinha um esquema um pouco puxado, que era das 9 horas da manhã às 10 horas da noite. Era um monte de horas assim, só que tinha um detalhe. O hostel trabalha com dois voluntários, mas naquela época éramos três. Porque ela me aceitou quando outro já tinha aceitado. Só sei que éramos três. E o esquema lá era assim: 4 dias de trabalho e 3 de folga, o que eu já tava achando o fantástico.

Já não era um trabalho pesado, porque só ficava ali, dava um apoio para ver se as coisas estão limpas e a cozinha em ordem. Passar um pano, repor papel, essas coisas. Não precisava fazer faxina não.

Só que como éramos três e esse esquema de 4 dias de trabalho e 3 de folga não ia dar certo, ele falou assim: “Olha, vamos fazer o seguinte, vocês trabalham 3 e folgam 6 cada um e pronto!”.

Daí foi muito legal, porque dos 30 dias, eu trabalhei 9.

Felipe: Que dahora, muito tempo livre! E eles davam alimentação?

Sueli: Não, esse era só hospedagem, mas o grande barato dessa situação é que os hóspedes deixam muita comida.

Deixam fruta, verdura, arroz, feijão. Vão embora e deixam. Tudo coisa que assim, tá boa, assim gasta-se muito pouco. Eu comprava uma coisa ou outra, o resto tinha tudo ali. Então foi super tranquilo essa primeira experiência que foi assim.

Felipe: Nossa e uma surpresa também que apareceu, né? Porque disso é feito também as nossas viagens, né? De surpresas boas que vem no caminho. Ainda bem, né?

Sueli: Sim, com certeza. Ainda vivi uma outra coisa muito divertida que foi em Toulouse, na França.

Eu cheguei lá entendendo um pouquinho de francês. Assim, não é uma língua estranha, já estudei bastante, mas não falo nada. Quando cheguei lá, dei de cara com um francês que nunca falou inglês na vida. E aí foi muito louco porque ele não falava inglês e eu não falava francês. A gente teve que se entender pela mímica.

Foi muito engraçado, mas até aí tudo bem porque depois chegou o dono do hostel, ele falava inglês e a gente começou a se entender melhor.

Aí no primeiro dia de trabalho (eram só 15 dias), ele falou assim “olha, eu não sei que eu vou dar para você fazer porque eu nunca tive um voluntário aqui, hoje você não trabalha, vai descansar e amanhã a gente pensa nisso”. Aí bom, fui descansar.

Felipe: Que beleza, nem tava cansada e até ficou, né?

Sueli: Segundo dia: folga também! No terceiro dia eu falei: “Olha você precisa arranjar alguma coisa para eu fazer”. Então ele perguntou se eu sabia costurar, já que tinha umas cortinas que precisava transformar em cortinas menores para as camas.

Ele me mostrou os tecidos, a máquina de costura e eu passei o restante dos 13 dias fazendo cortina para ele. Nunca imaginei que fosse rolar costura. Acho que em 15 dias fiz umas 20 e poucas curtidas para ele.

Felipe: Mas o bom é que você quem fazia seu horário também lá, né?

Sueli: Sim, mas eu procurava fazer dentro do meu horário para não tumultuar muito a coisa. E para eu poder também passear. Eu geralmente trabalhava de manhã e fora isso eu ia bater perna, conhecer a cidade.

Felipe: E tinha mais gente no hostel, ou era só você?

Sueli: De voluntário era só eu e tinha um gerente, esse que não falava inglês. Lá era um hostel que tinha muitos refugiados da África e de países da Ásia. O clima era meio pesado porque tinha muita gente sofrendo ali.

Felipe: É por que geralmente a galera que está no hostel é a galera que você vai sair. Nesse caso não, né?

Sueli: Exatamente, nesse caso não. Tinha só uma francesa que já tinha morado no Brasil, que falava português. Mas ela também trabalhava o dia inteiro e a gente só se via de vez em quando.

Então assim, do ponto de vista do convívio com o pessoal do hostel, nem foi grande coisa. Esse hostel até já fechou, eu soube que ele fechou e abriu com outra pegada, mas mudou de nome e tudo.

Mas valeu porque eu conheci Toulouse, conheci um pouco da vida dos franceses. Esse francês que não falava inglês, a gente se entendeu super bem, era um cara super gente boa, me ajudou pra caramba por que assim, depois dali, eu fui para uma outra cidadezinha que chamava Mer, que é tão pequena que nem os franceses conhecem, eles me perguntavam como eu achei isso e ninguém sabia onde ficava, nem eles. Mas é ali no vale do luar, perto de Blois, uma cidade um pouco mais conhecida.

Felipe: Mas você foi voluntariar lá ou foi conhecer?

Sueli: Fui! Eu fui voluntariar, mas daí eu fui de Blablacar e o cara com quem eu marquei não falava inglês direito. Eu tinha que encontrar ele em determinado lugar ele não tava entendendo. Se não fosse o francês lá do hostel eu tinha me perdido totalmente, foi uma novela. Enquanto eu não entrei no carro sã e salva ele não foi embora.

Felipe: Isso é muito legal, é bom que você pega um vínculo com a galera. O Blablacar ajuda, né, em qualquer lugar do mundo. Só que tem lugares onde a linguagem pode interferir. Tem que estar preparado. E lá de Mer você foi para onde? O que mais que você fez de trabalho?

Sueli: Mer foi bem bacana, uma experiência bem legal. Começou que o nome do hostel era Felicidade em português. Engraçado porque em Portugal o hostel tinha um nome em inglês e, na França, tinha o nome em português.

O dono do hostel foi me pegar na estação quando eu desci do Blablacar. Aí já tava combinado mais ou menos um lugar, o cara acenou, já imaginei que fosse ele e tal. Começamos a conversar e ele falando português. Eu falei “Mas como assim meu amigo?”, ele falava português muito bem.

“Eu sou francês mas eu morei cinco anos no Brasil, tenho uns negócios lá.”, disse.

E ele pôs o nome do hostel de Felicidade porque é isso mesmo, ele adora o Brasil, adorava pagode e não sei o que. No hostel tinha um monte de coisa brasileira e aí cheguei lá no hostel e ficamos assim, eu, mais um carinha que cuidava do bar também brasileiro e o gerente que já foi embora.

Felipe: Isso lá em Mer, na cidadezinha pequena que você falou, né? Quando você ia imaginar isso?

Sueli: Pois é! E assim, perguntei do serviço. Como era inverno, tava sem hóspede nenhum. Lá é mesmo fim do mundo, assim, uma cidade muito pequena.

E ele disse:

Olha, vamos fazer o seguinte? Se você der uma ajuda pra pôr a roupa na máquina para lavar, dá uma ajuda para passar aspirador e se você puder fazer o almoço. Fazer o nosso almoço, não para todo mundo, só pra mim, pra você e para outro brasileiro.

Mas o que você quer que eu faça?

Sei lá, faz qualquer coisa aí do Brasil que tá bom.

Felipe: Ah, aí é fácil né, aí falou minha língua.

Sueli: Eu fazia a lista, a gente ia junto no mercado e aí a gente fazia a comida. Então todo dia eu tinha comida, um quarto que era para dividir em 4 mas eu tava sozinha. E aí eu ia conhecer os castelos e a cidadezinha, que é coisa fofa de linda.

Felipe: E quanto tempo você ficou lá no total?

Sueli: Por 15 dias em Toulouse e 15 dias em Mer. Aí eu peguei um Blablacar de novo e fui visitar uns amigos na Inglaterra antes de voltar para o Brasil. Foi uma aventura.

Felipe: Hoje você está onde?

Sueli: Agora eu estou morando em Portugal, aqui perto de Lisboa, uns 15 minutos.

Felipe: E a sua experiência worldpacker influenciou nessa mudança?

Sueli: Então, na verdade teve mais uma cidade. Primeiro foi Sagres em Portugal, depois Toulouse, depois Mer e voltei para o Brasil. Aí voltei para Portugal e fui para Faro também como worldpacker e fiquei 45 dias.

O hostel era bem bacana lá no centro de Faro e eu queria conhecer Faro, porque achava que ia ser uma cidade que talvez eu pudesse morar.

Mas aí não tava rolando porque eu estava procurando trabalho remunerado, já que queria ficar mais tempo, por ter cidadania era tranquilo, aí eu conversei com um hostel que eu tinha ficado antes, lá no outro ano em Sagres e rolou um trampinho lá, um trabalho, aí eu fui para lá.

Aí depois eu fui para Sagres, mas Sagres é muito vento. Eu aluguei uma casinha e fiquei ali tipo moradora mesmo, mas era muito vento e eu comecei a ficar meio imaginando que no verão, beleza, cheio de gente. Mas e no inverno? Eu não ia dar conta daquilo. Aí eu procurei outras coisas para fazer e acabei também saindo de lá e encontrando um outro hostel, em Sines. Também um hostel muito bacana, diria que foi excepcional, o que eu mais gostei de todos até agora.

Felipe: E qual a diferença dele para os outros?

Sueli: Tinha uma coisa que para mim fez toda diferença que era um quarto individual. Um quartinho minúsculo mas tinha quarto e banheiro só para mim. Aí eu falei “Nossa, agora eu não vou embora mais, eu vou ficar por aqui.”

Felipe: E qual a diferença do quarto privativo?

Sueli: Depois de quatro compartilhados, chega uma hora que tem o chulé de um, aquela coisa de ter que se trocar no banheiro. É um pequeno desconforto, né? Não chega a ser algo que vai me deixar sem viajar, mas aí eu achei quarto particular muito melhor porque aí você fica mais à vontade, você tem que seu o próprio banheiro, sabe? não tem que ficar preocupado que vai no banheiro e tem uma fila. Fila não chegar a ter, até porque todos também tem um esqueminha razoável. Depende da hora também, ou seja, na hora que o povo volta da praia chega fazer fila mesmo, né?

Mas eu tinha um quarto particular só para mim e parte da refeição, então foi bem econômico. E Sines é uma cidade encantadora, na beira da praia, o hostel de frente para o mar, uma coisa espetacular.

Eu amei a cidade tanto que eu fui 2017, acho que era final de setembro começo de outubro, uma coisa assim e quando eu saí de lá eu falei: “Olha, eu quero voltar para o Brasil, mas eu quero voltar.” Então o anfitrião me falou para já entrar no site e deixar reservado. Já fiz a reserva praticamente na sequência para outro ano. Comprei passagem de ida para o Brasil mas já com a volta marcada, em abril.

Então abril deste ano, 2018, voltei para Sines, fiquei mais um mês lá e aí apareceu uma oportunidade de trabalho aqui em Lisboa e já tinha esquema com uma amiga que tava com quarto livre para a gente dividir, aí eu acabei vindo para cá e aqui eu tô trabalhando.

Meu trabalho é de consultora imobiliária, estou começando assim, começando a entender o mercado porque está bem aquecido. Então assim, estou curtindo agora uma vida de moradora mesmo.

Felipe: Muito bom. E aí, quando você estava vivendo mais como voluntária, chegou a interferir em algum momento a idade que você tem ou não?

Sueli: Não, nenhum momento. Eu nunca senti nem discriminação, nem de “me poupar” por alguma coisa, muito pelo contrário. Sempre me senti de igual para igual e inclusive pela moçadinha. Eles iam pra balada e não deixavam de me convidar. Eu é que não ia, porque nem quando eu era jovem eu não tinha muito essa coisa de balada, né?

Mas foi super! Os donos dos hostels mesmo eu não tive nenhum problema. Eu nunca tentei me candidatar para esses que falam “Vaga de 18 a 40 anos”, aí eu nem me candidato.

Felipe: Aí você já fala “ah, sai fora, isso não é para mim”, né?

Sueli: Se já tá pondo a idade como restrição, né? Mas nunca ninguém nem me perguntou a idade.

Felipe: Nossa, que legal, mas como é que foi a relação com os outros voluntários aí do mundo inteiro que você trabalhou?

Sueli: Nossa, muito legal, muitos já se posicionavam como “filho”, sabe? Vinham conversar, tipo quando você conversa com a mãe, então alguns me adotaram. Foi muito legal. Fiz grandes amigos. A gente participa ainda dos grupos de WhatsApp, a gente bate papo. Um ta na Inglaterra, outro ta na Alemanha e de vez em quando a gente conversa. É muito engraçado.

Felipe: Olha, pensando aqui que seu filho te inspirou e daí você começou a viajar. Eu ia ficar com um pouquinho de ciúme da minha mãe, se fosse no meu caso.

Sueli: Ah, eu imagino.

Felipe: Eu imagino que ele deve ter uma pontinha ali, eu acho!

Sueli: Não sei, nunca confessou, tá?

Felipe: Mas deve ter. E aí você chegou a conhecer uma galera da sua idade ou sempre gente mais nova?

Sueli: Em Sines eu fiz amizade com uma hóspede, que foi também uma curiosidade, porque ela era uma hóspede sem país. Ela tinha mais ou menos a minha idade ou exatamente a minha idade, mas ela foi para lá para ficar um mês, o que já era uma novidade. Em hostel normalmente as pessoas ficam alguns dias, uma semana no máximo e ela foi no espírito de relaxar e tal.

Aí, automaticamente nos aproximamos. Em Sines eu trabalhava só 5 horas, só de manhã e toda tarde a gente ia caminhar na praia e tal, íamos conversando e ficamos grandes amigas. Ela era uma americana que tinha sido deportada pelo Trump e voltou para Inglaterra, seu país de origem, só que a Inglaterra também não tinha lugar para ela, porque disse que ela saiu de lá muito cedo e nunca tinha pago imposto, então também não tinha nada para ela. Aí que ela foi pra Sines pra ver se ela se encontrava em algum lugar.

Felipe: Aí cruzou o caminho com você, que doideira.

Sueli: E assim ficamos amigas, era todo dia e tal. E ela era hóspede, mas como também era uma hóspede que almoçava, jantava e tomava café, todo dia ali, era como se fosse parte da galera, com as meninas que trabalhavam na recepção e na limpeza. Então Sines foi assim, uma família mesmo. O dono é uma pessoa espetacular, muito legal, muito amigo e tudo. As meninas que trabalham na recepção também super gente boa. Nossa, se eu tivesse grana na época, acho que eu teria comprado um apartamentinho, alguma coisa e teria morado por lá mesmo.

Felipe: Então foi muito amor mesmo, né? Que coisa linda.

Sueli: Foi, foi. Eu adorei mesmo.

Felipe: Então vem cá, você tem alguma coisa para dizer para pessoa que vive de aposentadoria aqui no Brasil e que fica sempre naquela mesmice, que pega sempre o dinheiro da aposentadoria para fazer as mesmas coisas, pagar as contas e tal, na mesma pegada de quando trabalhava, de viajar um mês por ano, sabe?

Sueli: Eu entendo que assim, às vezes as pessoas nessa fase da vida tem um pouco de medo de se aventurar, de ir para um lugar desconhecido e de fazer coisas diferentes. Mas eu diria para esse povo:

“Olha, se puder, se você tiver um pouquinho de coragem, fecha os olhos e vai. Por que é muito bacana uma experiência assim.”

Claro, você tem que ter um certo pique também, porque você não vai chegar num hostel e querer ficar assistindo televisão dia inteiro, né? Não vai rolar. Tem que ter uma certa vontade, né? De fazer alguma coisa, de caminhar, conhecer gente, bater papo e fazer o trabalho mesmo.

Porque por exemplo, em Faro, o hostel era nota 10, eles dão um café, almoço e jantar, qualquer comida você faria lá, você tem comida à vontade, mas você trabalha 8 horas por dia. Com duas folgas por semana.

Eu dei um pouco de sorte porque quando eu cheguei eles estavam criando um cargo novo que era ajudante de cozinha. O cozinheiro também era voluntário, mas tinha alguém para ajudar porque tinha que fazer jantar para 10, 12 pessoas à noite, né? Toda noite tinha que fazer um jantar, então começava às duas da tarde e ia até às 10 horas da noite, né? Toda noite. Mas era um serviço que eu dava super conta porque, sabe, descascar cebola, cortar batata, essas coisas. Limpar então, tranquilo. Eu preferia esses dias do que uma vez por semana, que a gente tinha que ir para limpeza, e 8 horas de limpeza é um bocado pesado.

Felipe: E você na cozinha acaba comendo também, né? Faz um rango para você, dá uma beliscada alí.

Sueli: Sim, é muito legal, você aproveita e já faz o seu, né? De vez em quando a gente criava junto, né? Cada um dava uma ideia e fazia assim, o jantar da galera. Então assim, a pessoa que está aposentada, eu acho que ela precisa se conhecer um pouco, né? E acho que esse é um bom momento para você sair da sua zona de conforto, procurar uma coisa diferente para fazer, uma coisa que você nunca pensou em fazer.

Isso dá uma super ativada na mente, sabe? Um upgrade mesmo e onde talvez tenha a oportunidade de conviver com você mesmo, sabe? Se conhecer porque você não tem mais vínculo com nada. Então, meu, vai. Se aventura mesmo, é super legal, você economiza uma grana.

O mais caro de uma viagem é a hospedagem. A comida, você estando num hostel, mesmo que eles não tenham comida, você vai no mercado, compra , faz a sua comida. Então você vai gastar menos, né? Você vai gastar só com transporte e diversão. É bem adequado porque em cada cidade você vai conhecer aquela cidade e os arredores, né? Então assim, eu estava em Faro e eu fui alí, conhecer o sul do Algarve, o leste.

Você pega um trem, vai dar um rolê ali no seu dia de folga, vai na praia, então você tem trabalho, não se sente inútil, você tem uns dias de folga, às vezes, em alguns casos, até todo dia você tem folga. Em Sines eu tinha meio dia todo dia.

Felipe: Legal, você trabalhava meio período.

Sueli: O trabalho em Sines era super de boa, super tranquilo porque eu tinha que cuidar do café da manhã. Aí o café da manhã era às 8h30, então eu descia do meu quarto às 8h, tinha que colocar tudo na mesa, um café super bacana. Só que era tudo meio pronto, então era ligar a máquina de café, colocar o suco na jarra, colocar pãozinho na mesa.

Felipe: Eles têm todos os esquemas, né? Agora vem cá Sueli, eu estou muito contente porque esse Podcast está se mostrando não só para empoderar galera de mais idade a viajar e sim empoderar também a mulherada a viajar e a viajar sozinha, não é verdade? Gostaria que você mandasse uma mensagem aí, nesse aspecto, se quiser juntar os dois, o fator idade e o fator de você ser mulher, enfim. Fala alguma coisa aí para dar um gás aí nessa galera!

Sueli: Em geral eu acho que a mulher tem um pouco mais de espírito de aventura até que o homem, nessa fase da vida pelo menos. Mas olha, eu fiquei super tranquila, Portugal é um país super seguro. Eu saia à noite, eu passeava. Eu viajei para todo lado sozinha, de trem, de metrô, de ônibus, de tudo que deu. Eu fui até de blablacar pros lugares.

E blablacar eu peguei na primeira vez com um rapaz aqui em Lisboa e fui para Toulouse, também de blablacar. Fui eu e dois rapazes no carro e era um furgão, né? Assim, nesses filmes sempre tem um furgão para enfiar uma mulher dentro, mas foi super tranquilo, era um português e um francês e foi super legal. Eu amassada entre os dois, mas o papo foi super legal. Paramos para comer porque foram 20 e tantas horas de carro, né? E a gente parava para descansar um pouquinho. Nenhum momento eu me senti ameaçada ou em uma situação esquisita.

Depois, de Mer para a Inglaterra também são muitas horas e você entra com carro no navio, aí você fica lá dentro do navio e era um rapaz que o inglês ele era terrível, ele era estrangeiro, de algum lugar, mas vivia na Inglaterra. E eu não consegui entender muito bem o inglês dele e ele não conhecia direito a Inglaterra, então nossa, a gente tinha muito problema de comunicação, mas foi super tranquilo também.

Na hora de passar no navio ele não conseguia validar o bilhete, eu tive que emprestar dinheiro para ele, depois ele me pagou, foi assim, muito engraçado, né? E assim, nesses países pelo menos, eu como mulher não me senti nem um pouco constrangida, nem ameaçada, nem em situação de perigo. Eu super recomendo porque é muito legal você poder estar com você sozinha e ao mesmo tempo conviver com as outras pessoas sem essa neura que eu tinha em São Paulo pelo menos, de perigo. Você está sempre no perigo, sabe? Você tem que ficar o tempo todo olhando para trás, cuidando da bolsa e, assim, esse estresse da insegurança no Brasil é uma coisa que me motivou bastante a procurar outras coisas, né?

Felipe: E aí assim, agora para inspirar a galera mais jovem também, você tem algum conselho para dar para galera mais jovem?

Sueli: Quem não começou, começa, porque se tivesse Worldpackers quando eu era jovem eu acho que eu tava até hoje só viajando. Cara, é muito legal mesmo. Começa logo, sabe. Não deixe para amanhã não porque é uma oportunidade ímpar, você poder viajar, gastar pouco. E outra, a vida de hostel é muito engraçada, principalmente para os jovens, ela é muito divertida porque tem muita gente. E não tem sé jovem. Lá no hostel de surfista teve excursão de gente de mais de 60 que fazia caminhada e ciclismo. Então assim, tem de tudo mesmo. Mas para galera jovem eu acho, assim, aproveita que você é jovem cara, que quando você ficar velho você vai já vai ser muito experiente nisso e vai curtir mais ainda.

Felipe: Você já vai no foco, já vai certinho, né? Bom, gostaria agora de ouvir um conselho geral assim seu, sabe, como uma mensagem final. E de pedir pra quem tá ouvindo a gente se inscrever no nosso canal aí no iTunes, SoundCloud, para ajudar a gente aí a continuar!

Sueli: Olha, o que eu diria primeiro é que eu sou super grata ao fato de ter conhecido a Worldpackers e por ter essa oportunidade nessa altura da vida, né? A minha mensagem para o pessoal que está ouvindo é assim: “Não deixe para amanhã não, sabe?”

Curte logo, aproveita que você pode, faça amigos e aproveita também para se conhecer, porque viajando a gente se conhece muito mais, a gente sabe do que a gente gosta, do que a gente não gosta, aquilo que faz bem, aquilo que não faz. Às vezes a gente está na roda viva aí, do dia a dia, e acaba por passar por cima da gente mesmo, sabe? E acaba se envolvendo com uma mesmice.

Fica ali naquela coisa do vai que vai, né? E não aproveita para se expandir no mundo, mudar um pouco o foco da vida, porque a vida é muito curta, isso é um fato. Passa muito rápido e essas coisas que nos fazem crescer por dentro, né? A mente cresce, não é só conhecimento teórico, sabe? Isso é o que fica. Porque quando você ver você já está velho não fez nada do que você queria.

Então assim, eu diria: Aproveita. Conhece gente e conhece a si mesmo que eu acho que a grande sacada e é essa.

Felipe: É isso. Então olha, muito obrigado Sueli!

Sueli: Eu que agradeço!

Felipe: Galera, esse foi o papo com a Suely Godoy, se tiver alguma dúvida pode mandar aí nos comentários que a gente vai ter o maior prazer de respondê-los, beleza?

Sueli: Beleza! Eu estou respondendo bastante já, pode pedir para mim!

Felipe: É isso aí, a Suely está online, tá lá na plataforma da Worldpackers e tem ainda um artigo sobre a experiência dela!

Então galera é isso aí, se você curtiu o Podcast não esqueça de inscrever-se no nosso canal do iTunes e SoundCloud e bora viajar!


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Felipe

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