historia da worldpackers comecou numa van na California

Eu (Riq) e Eric nos conhecemos há mais de dez anos. Durante a semana a gente almoçava juntos para reclamar da vida corporativa e nos finais de semana, único momento em que é permitido a uma pessoa bem sucedida relaxar, íamos surfar.

Como a humanidade chegou nisso?

1. A decisão de largar tudo

Eu tinha uma “carreira bem sucedida” pelos padrões da sociedade. Banqueiro, usava terno, gravata, bom salário e seria promovido muitas vezes até virar diretor, mas estava profundamente infeliz com a falta de propósito daquilo tudo.

Um dia, em novembro de 2011, após termos fechado uma bela negociação, percebi que por mais que os negócios fossem bem, dentro de mim algo não ia nada bem. 

Olhava ao meu redor e via seres humanos dominados pelo ego, querendo ter mais que o outro, pensando apenas em dinheiro e eu percebia a infelicidade deles. 

Esse é o padrão do bem sucedido: rico e infeliz. Decidi naquele momento que não seria um deles e pedi demissão.

Eric era uma auditor contábil. Trabalhava dia e noite, com a promessa que ao trabalhar muito e agradar o chefe seria promovido, ganharia muito dinheiro e poderia se aposentar e viver feliz para sempre. 

Lá no fundo ele sabia que esse modelo fazia bem pra empresa, mas não para ele, que sempre gostou mesmo de surfar. 

Me lembro que almoçávamos juntos na Avenida Paulista e os dois reclamavam de uma vida que criaram pra gente, e que estávamos presos e parecia não haver saída. 

Eric decidiu ir viajar para os Estados Unidos para aprender inglês (essa licença seria uma chance de ficar sem trabalhar por seis meses antes de voltar para a infeliz rotina que tinha). Ele nunca mais voltou.

Me lembro que ao pedir demissão do banco, desci a Avenida Faria Lima (aonde 70% das pessoas estão fantasiadas de terno) gritando e comemorando: eu estava livre. 

Sabia que minha vida tinha mudado naquele momento e decidi dar uma volta ao mundo. Todos acharam que eu tinha ficado louco, que não aguentava a pressão do trabalho ou que era burro e estava jogando uma grande oportunidade no lixo. 

Na verdade, minha grande oportunidade começava naquele dia: eu estava começando a VIVER! 

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2. A paixão por viajar

Passei os próximos três anos viajando por mais de 50 países, a maior parte na África e Ásia. 

Vivi experiências incríveis, andei com gorilas, morei em um retiro espiritual na Índia, viajei de camelo pelo Sahara, aprendi francês e alemão e meus melhores amigos estão em todos os continentes. Percebo que eu moro no mundo e viajo pela minha casa.

Descobri que é muito mais divertido viver em hostels pelo mundo, conhecendo gente, do que ficar trabalhando a noite de um hotel cinco estrelas em uma grande cidade. 

Viajar de business class era legal, mas me lembro muito mais das experiências que tive nos trens da Índia. 

Percebi que viajar é a forma mais pura de aprendizado, fora das amarras da rotina, da zona de conforto e das necessidade artificiais criadas pela sociedade. 

Você passa a ser o decisor da sua vida e aprende com novas pessoas e situações, confortáveis ou no perrengue, mas aprende. Aprende se divertindo, volta a ser criança, espontânea, e ainda melhora seu “CV” (aprende línguas, ganha novas habilidades, aumenta seu network global). 

O melhor de tudo: você se conhece, percebe quem é você, o que quer da vida, o que gosta e o que a sociedade implementou na sua concepção de você.

O Eric foi para os Estados Unidos na mesma época que eu fui pra África, sete anos atrás. Se matriculou em uma escola de inglês, mas percebeu que só tinha brasileiros na classe e o formato da aula, assim como o modelo educacional vigente no mundo, consiste em algum ser que teoricamente sabe mais falando e outros seres repetindo. 

Eric percebeu que esse é o pior jeito de se aprender! Descobriu um hostel perto da escola, onde podia ajudar algumas horas por semana em troca da hospedagem.

Wow! Ele decidiu viver no hostel, aprendendo inglês de um jeito muito mais rápido e divertido, falando com gente do mundo inteiro assuntos que faziam sentido pra ele, em contato com vários sotaques. Ele nunca mais voltou pra escolinha. 

Tão marcante foi a experiência que, junto com mais dois voluntários, eles decidiram abrir um hostel em San Diego, onde receberiam hóspedes colaborativos do mundo inteiro, criando um ambiente global onde viajantes se ajudavam e quem colaborava não precisava pagar a acomodação. 

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A experiência deu muito certo e, em 2013, eu fui lá colaborar e passar uns meses no International Travelers House. Comecei ajudando na limpeza, depois recepção, até virar instrutor de surf, promotor de festas e artista na casa! 

Claramente não era um trabalho no conceito que eu imaginava da palavra: eu me divertia, conhecia gente do mundo inteiro, melhorava meu inglês e não estava gastando dinheiro para aquilo. 

Me sentia produtivo e leve e o hostel também, tínhamos uma relação verdadeiramente ganha-ganha onde as duas partes aprendem, doam algo e se beneficiam, sem a necessidade do dinheiro como moeda de troca. 

Habilidades pela experiência, um novo jeito de se viver e se relacionar com o trabalho, viagem e dinheiro!

Nesse momento era óbvio que eu e o Eric não voltaríamos ao mercado financeiro. 

Todos nossos amigos diziam que éramos muito sortudos por viajar o mundo e viver na Califórnia e que isso era algo muito longe da realidade deles. Na verdade, era muito mais simples e necessário fazer isso do que eles pensavam. 

3. O início do projeto

A viagem mudou nossa vida e agora queríamos criar essas mesmas oportunidade para mais gente se transformar através da viagem. 

Começamos a falar disso em um café e o sonho virou a Worldpackers, uma comunidade colaborativa que gira ao redor da troca de habilidades por hospedagem. 

Ao realizar meus sonhos nas viagens, percebi que só seria feliz se ajudasse mais gente a realizar o sonho delas, e o maior sonho das pessoas é viajar e um dos maiores medos também. 

Com uma plataforma online, com oportunidades verificadas pela gente, poderíamos inspirar as pessoas e fornecer a ferramenta que precisavam, o empurrãozinho para se jogarem sem medo!

Morando no hostel, entre festas e colaboração, ficava difícil trabalhar no site. Nesse começo, contratamos um desenvolvedor de sites da Índia para criarmos a plataforma. 

Não sabíamos nada de startups e a primeira versão do site fizemos em Excel (um contador e um economista juntos dá nisso). Saímos do hostel e compramos um van para nos dedicar 100% ao projeto. 

Passávamos horas discutindo como seria a experiência dos viajantes e anfitriões, como poderíamos inspirar mais gente e como deixar mais fácil a decisão e a viagem em si.

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Viajar é um direito universal e, antes das revoluções industriais e da agricultura, os seres humanos já viajavam. 

Além disso, ao ficar na casa de um amigo, no mínimo você arruma a cama e lava a louça - a troca de habilidades por hospedagem é algo milenar. O que fazemos é apenas democratizar as viagens de experiências através da tecnologia e globalização. 

Trabalhávamos dia e noite da van e de cafés que tinham internet. Voltamos pro Brasil, moramos de favor na casa de um amigo e dormimos em colchões de ar em um escritório na Avenida Paulista que meu irmão emprestou pra gente. 

Estávamos fixados em criar, não ganhávamos nenhum centavo, tomávamos banho na casa de amigos. Olhando pra trás, era meio loucura mesmo, mas aprendi viajando que o que se considera normal não necessariamente te faz feliz.

Veja esse vídeo contando um pouquinho mais da nossa história:

4. A Worldpackers

Lançamos a plataforma no dia 04 de fevereiro de 2014. A primeira versão, bastante simples, era lenta e cheia de bugs. 

Foram dezenas de milhares de compartilhamentos, reportagens e blogs falando da gente. Daí pra frente foi muito trabalho e muita gente boa colaborando e compartilhando da causa. 

O movimento cresceu e hoje somos 1 milhão de Worldpackers, em mais de 170 países, que acreditam que viajar é um direito universal. 

Anfitriões de hostels, ONGs, fazendas orgânicas e casas de família abrem suas portas para receber os viajantes, para ajudar e ensinar. 

Um time comprometido e apaixonado trabalha dia e noite de várias partes do mundo pra fazer e manter a plataforma. Já foram mais de 1,500,000 de noites compartilhadas, dezenas de milhares de viagens e vidas transformadas.

Acreditamos que viajar é o jeito mais fácil de despertar a consciência, de estar presente e de iniciar a jornada do autoconhecimento. Realizando o maior sonho das pessoas através de inspiração e ferramenta intuitiva, removendo os maiores medos da cabeça dos humanos, teremos um mundo muito mais igualitário, sustentável e altruísta. Agindo através do nosso propósito para ajudar mais gente a encontrar o seu propósito. De viajante pra viajante. 

Queremos empoderar as pessoas a serem livres para descobrirem o mundo e se descobrirem. 

Imagine um mundo sem fronteiras, onde humanos possam trocar experiências e aprendizados, com a mente receptiva e o coração aberto, sem se importar com sua idade, cor, sexo, origem, religião, roupa, condição financeira, corte de cabelo, que time torce, que politico gosta ou qualquer outra ilusão criada pela mente.

Viajar muda as pessoas e são essas pessoas que mudam o mundo.


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Riq

After quitting my job, I traveled the world for 3 years and explored more than 50 countries. When...

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Out 19, 2018


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