Uma experiência renovadora de voluntariado ecológico na Espanha

Há três anos viajo de bicicleta pela Europa com minha fiel companheira Pipoca. Na Espanha tivemos o prazer de voluntariar no Pedriñal e vou contar como foi a experiência.


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Isa and Pipoca - Onde Brilhem os Olhos

Mai 20, 2019

Paulistanas, nômades e analógicas. Por definições: A de duas pernas é turismóloga, curiosa, uma idealista desencanada, servidora e amante. A de q...

Como foi a experiência de voluntariado no Pedriñal

Antes de falar especificamente da minha experiência como Worldpacker no sítio Pedriñal, é importante esclarecer que nosso estilo de vida (no caso, meu e da Pipoca - minha companheira de 4 patas) é um tanto quanto diverso: em março de 2016 a gente embarcou num avião de São Paulo à Europa para o que deveria ter sido um ano sabático. Hoje, três anos depois, seguimos perambulando com nossa bicicleta por aqui, e sem previsão de parar.

Somos nômades. Não, não digitais, somos apenas nômades mesmo.

Buscamos preferencialmente hosts em áreas rurais onde possamos aprender sobre permacultura, tomar chá de ervas fresquinhas colhidas da horta e limpar barro das botas, patas e rodas por algumas semanas. Depois seguir pedalando até a próxima experiência.

Acho importante esclarecer isso porque, diferente de outros relatos aqui na comunidade WP, no nosso não vai ter muito como abordar detalhes sobre custos de viagem ou trâmites com burocracias, por exemplo.

A gente se locomove de bike - custo praticamente zero - e tanto eu como a Pipoca temos o passaporte europeu, o que facilita nossa permanência por aqui por tempo indeterminado. Hoje eu vim mesmo foi pra contar especificamente sobre nossa incrível experiência na Pedriñal, então vamos tentar manter as coisas no “simples”, tá bem?

Já fazia uns 8 meses que pedalávamos pela Espanha. O plano original para aquele ano era cruzar o país pelos Caminhos de Santiago de Compostela, mas depois de um perrengue com chuvas e alagamentos em Zaragoza, a gente decidiu dar um tempo e buscar um host para descansar da peregrinação. Abrimos o app e descobri que a Sara - nossa host na Pedriñal - vivia a cerca de 100km de onde estávamos. Sim, no meio do caminho tinha um Pedriñal.

Mandei a mensagem nos oferecendo para chegar dali a 10 dias, mas a Sara só foi ver nossa aplicação 5 dias depois. Isso, aliás, é algo bem comum para os tipos de hosts que buscamos. Nas áreas rurais, nem sempre internet é uma facilidade e às vezes temos que nos conformar com a vida mais lenta do que a que estamos acostumados em grandes centros urbanos.

Pois bem, quando recebi a resposta da Sara estávamos a menos de 20km do sítio. Por casualidade tínhamos parado três noites seguidas num povoado próximo fazendo couchsurfing e por isso acabamos levando mais tempo que o normal pra fazer aqueles 100km. Ainda lembro da felicidade ao ver a confirmação entre as nossas mensagens, porque eu estava realmente querendo dar um tempo do pedal diário. Lá fomos nós, para aquele vilarejo de 3 mil habitantes ao sul do Reino de Navarra na Espanha!


Vista do sitio Pedriñal

A rotina na casa era bem flexível. Oficialmente, a Sara vive sozinha, mas sempre sempre sempre tem amigos, vizinhos ou família visitando-a. Sempre tem algum serviço pra fazer na horta, tipo arar o solo para evitar ervas indesejadas, plantar (cenoura e cebolinha foi o que fizemos enquanto estivemos lá), ou colher maços infinitos de cardo - a verdura da época com a qual fizemos muitos potes de conserva que seriam consumidos ao longo de todo ano - e também de alcachofra. Só que o trabalho na horta é totalmente dependente do tempo, já que depois das 10 da manhã fica impossível suportar o sol quente no lombo, mesmo na primavera!

Pois bem, durante o período de sol quente, a gente aprendia sobre bioconstrução, ajudava a pisar barro e preparar o adobe para o mutirão que faríamos dias depois com outros três voluntários, vizinhos e amigos da Sara. Subimos 3 paredes da casa principal. Teve almoção vegano, massagem e oficina de confecção de pasta de dente sustentável para descontrair depois do trabalho pesado!

Na casa tem outros dois cachorros com os quais a Pipoca se deu super bem. Eu ia felizona passear com os três todas as manhãs pelo campo.

O círculo de amigos da Sara é genial! Ela pratica acroyoga e pelo menos uma vez por semana encontra a trupe para praticarem malabares e outras acrobacias. Os encontros são repletos de boas energias e diversão. Nós também fomos todos juntos acampar por uma noite no Moncayo - a montanha mais alta da Cordilheira Ibérica. Foi mágico, teve fogueira, violão e biodança.

As acomodações na Pedriñal são simples, mas super confortáveis. Se bem que conforto para uma nômade que passa boa parte do ano pedalando e acampando numa barraca de 50 reais é relativo, né? Mas acho mesmo que posso classificar assim! A casa é grande, embora ainda em construção. A maior parte do tempo lá tivemos um quarto só pra gente - sim, a Pipoca dormiu do ladinho da minha cama! Por duas ou três noites compartilhamos a habitação com uma outra voluntária que veio para ficar pouco tempo. Tem banho quente com energia solar e comidinha boa de roça.

O sítio fica bem às margens da Via Verde Tarazonica, uma ciclovia de mais de 20km de cultura e paisagens de cair o queixo. Caminhando cerca de 1km chega-se ao povoado de Murchante, que conta com três mercadinhos, botecos, farmácia, correios e a cooperativa onde comprávamos vinho bom e barato cultivado na região.

Pode soar inacreditável, mas a minha maior superação nessa experiência foi a questão da língua! Eu sei, depois de tanto tempo pedalando pela Espanha era de se esperar que meu espanhol já tivesse desabrochado, mas a verdade é que o Pedriñal foi, de fato, o primeiro host espanhol que nos recebeu nessa jornada!

Antes, tínhamos passado por hortas e comunidades de alemães, franceses e catalães (pois é, eles não se consideram espanhóis e preferem falar qualquer outro idioma), então sempre me virei com o inglês, que é a língua que eu pratico mais depois do português. Só que a Sara, assim como a maior parte das pessoas no Norte da Espanha, não falava inglês, e entre os amigos eles falam uma variação do Euskera que é, segundo eles mesmos definem, “a língua do diabo”!

Pra resumir, eu não tinha outra alternativa senão desenrolar meu portunhol com eles. Sempre morri de vergonha disso e lá eu morri muitas vezes, mas foi realmente a oportunidade perfeita pra colocar todos os meus dotes de comunicação em prática: sorrisos, mimicas e sons indefinidos.

Ah, e, claro, foi o empurrão que faltava para eu retomar minhas aulinhas de espanhol no aplicativo do celular toda noite antes de dormir. Foi notável o quanto melhorei nessas três semanas lá. Sim, o idioma também, mas eu tô falando mesmo é da questão da timidez e bloqueio de comunicação que eu ainda tinha com os espanhóis.   



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