Intercâmbio na Costa Rica: 9 lições que aprendi como voluntária na natureza

Depois de anos vivendo a mesma rotina em uma cidade grande, eu queria estar no meio da natureza. Viajando entre mapas e relatos, encontrei um lugar perfeito para um voluntariado: uma fazenda na floresta tropical.

8min


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Bruna

Set 11, 2020

Decidiu botar a mochila nas costas e ir explorar o mundo. Sem data de retorno. Designer, ama cinema, música e bons livros. E um cafezinho também!

intercambio costa rica

O sufoco de morar em uma cidade grande e viver uma rotina controlada motivaram minha busca por novas experiências. Existe melhor forma de fazer isso do que através de um voluntariado no exterior? Mesmo vivendo no Brasil, que é um lugar com tanta diversidade e riqueza natural, eu queria me distanciar do que me era familiar, saindo do meu país de origem, do idioma conhecido, dos costumes. Da minha bolha!

A Costa Rica faz parte da América Central, e é famosa por sua estabilidade política e riqueza natural — ela abriga 5% da biodiversidade do mundo! Banhada tanto pelo mar do caribe quanto pelo oceano pacífico, praia é o que não falta. Também agrada outros gostos, pois oferece inúmeros parques nacionais para aqueles que gostam de trilhas ou esportes radicais, e uma infinidade de vida selvagem para os que amam observar pássaros e outros animais. Não precisa procurar pela natureza, ela está por todos os lados.


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A fazenda onde fui voluntária ficava nos arredores do vulcão Arenal, onde vivi por quase dois meses. Fiz uma imersão na cultura costarricense, muito diferente de uma viagem de férias tradicional. Quando nos hospedamos em hotéis ou viajamos com amigos, é mais difícil ser espontâneo e fugir da programação. Fazer um voluntariado significa estar aberto ao que as pessoas e os lugares têm a te oferecer, abrir uma portinha para um novo mundo. Um que você nem imaginava que existia.

Eu procurava uma experiência que fosse o oposto de tudo que eu conhecia. Por isso escolhi viver em uma fazenda no meio da floresta tropical, longe do caos e das preocupações da cidade. Consegui uma oportunidade de trocar trabalho por hospedagem e alimentação de um eco-lodge na Costa Rica. A cidade mais próxima ficava a 50 minutos de caminhada, ou seja, estávamos isolados dos grandes centros.


costa rica comida

Como o escritor Michael Crichton fala sobre situações desse tipo, somos removidos de tudo que nos é conhecido – nossos amigos, nossas rotinas diárias, nossa geladeira cheia de comida que escolhemos, o guarda-roupas cheio de opções. Tudo isso vai embora e somos forçados a viver uma experiência direta: foco total nos acontecimentos do momento presente. Não vai ser confortável, mas você vai aprender muito. 

Viajar como voluntário é uma poderosa ferramenta de desenvolvimento pessoal. Te convida a encarar as suas sombras, conviver com o desconforto, desligar o piloto automático. Refletir. Chega um momento em que você percebe que está mais forte e mais resiliente a desafios antes intransponíveis. Você não se reconhece mais! Compartilho aqui alguns dos aprendizados que tive no meu período como voluntária.

Lições do intercâmbio em uma fazenda na Costa Rica


costa rica natureza

1. Dividir é compartilhar

Sempre fui mais introspectiva, atenta a ter meu espaço pessoal protegido. Morava sozinha na cidade e muitas vezes me refugiava na segurança e no silêncio do meu apartamento. Eu sabia desde o início que um dos desafios seria dividir espaços tão íntimos, como o quarto e o banheiro. Na fazenda, éramos cerca de 60 pessoas morando e trabalhando no mesmo lugar. Tenha consciência de que momentos de privacidade serão raros, mas o que você recebe em troca é muito gratificante.

Nesse ponto, eu saí muito do meu conforto e só tenho a agradecer por isso. Tive uma convivência íntima com pessoas de culturas e realidades tão distantes da minha, uma oportunidade única de aprendizados. Na mesa de jantar ou trabalhando na horta, éramos seis países diferentes falando sobre comportamento, política, relacionamentos amorosos, música. Aproveite esses momentos!

2. As aparências não importam 

Quando eu vivia na cidade, sentia uma forte pressão social a respeito da minha aparência. Principalmente sendo mulher - essa cobrança está lá, mesmo silenciosa. O triste é que nos acostumamos com isso, e, muitas vezes, nem percebemos ou questionamos. Como nos apresentamos externamente parece ser mais relevante do que o que acreditamos, sentimos e pensamos. Somos muito mais do que nossa aparência.

Na fazenda, o uniforme de trabalho que eu usava todos os dias era pura terra, nem adiantava se esforçar muito na hora de lavar. Ficaria imundo no próximo dia. Os espelhos eram raros, e a preocupação com roupas eram mínimas. É um alívio esquecer disso! Podemos focar em outras coisas: apreciar a vista, desfrutar da companhia das pessoas, aprender novas habilidades, criar memórias. Todos usávamos praticamente as mesmas roupas todos os dias, e ninguém se importava.


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3. O contato humano é transformador

O acesso à internet era limitado, e apenas em uma área comum. Eventualmente, todos acabávamos esquecendo do telefone. Tinha tanta gente morando e trabalhando no lugar, que cada dia que eu sentava para tomar café da manhã, uma nova história se desenrolava.

O contato humano nessa experiência é inevitável, e é de onde vêm as lições mais importantes sobre a vida e sobre nós mesmos. Nem sempre estamos dispostos a ouvir o outro, e para mim esse foi um exercício de escuta empática e de criar laços com a comunidade. Quando ouvimos com paixão, nos conectamos com o outro, nos afeiçoamos. 

Conheci inúmeras situações de vida, dei risada, me emocionei, fui surpreendida e desafiada. Ouvindo a história do outro aprendemos a valorizar a nossa própria, o lugar de onde viemos e as oportunidades que tivemos. Exercitamos a gratidão. 

4. Nunca deixe de fazer algo por medo

Tirando a parte o medo de iniciar essa aventura, o que eu mais temia ao me meter na floresta eram os insetos. Todos meus amigos conhecem meu pânico de animais voadores e de formigas. Sim, formigas. Tenho alergia às picadas e já tive problemas sérios, a ponto de ir parar no hospital.

Imaginei infinitas situações de perigo, levei uma bolsinha cheia de remédios e paranoia. O que aconteceu? Nada. Aprendi a desviar dos formigueiros trabalhando na horta, e também a conviver com os outros insetos. O pior que aconteceu foram as picadas infinitas de mosquito, mas mesmo para isso tinha solução, e acabávamos acostumando. Já pensou se eu tivesse desistido de ir por causa disso?


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5. Seja paciente (não importa o que aconteça)

As coisas não vão acontecer na hora que queremos. Nem com o imediatismo que estamos acostumados na cidade. Paciência. Para esperar uma carona para ir até à cidade, para comprar chocolate, para chegar a hora das refeições, para a chuva passar (e ela passa), para as roupas secarem no varal (e também para lava-las a mão). Para entender e respeitar as necessidades do outro. Treinar a paciência nunca é demais, em qualquer situação.

6. Não falar o idioma local é positivo

Quando você não fala um idioma, quando não tem todas as palavras na ponta da língua, precisa encontrar outras formas de se comunicar. Quebrar uma palavra em várias outras que você conhece, pedir ajuda para um colega que fala melhor que você, usar gestos. Se você não fala o idioma local, não tenha medo e não deixe isso te impedir de ir mesmo assim. Você pode ter uma experiência muito rica justamente por não falar o idioma local.

O não-verbal tem um papel importante: prestamos mais atenção no olhar, na intenção, nos pequenos gestos, nos movimentos. Você precisa estar mais atento quando alguém está falando com você, para ter certeza que vai captar a mensagem. Acabamos nos tornando muito mais observadores e perceptivos.


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7. Ser voluntário muda o turista dentro de você

A cada viagem que faço, vejo meu olhar sobre turismo mudando. Também a minha forma de viajar. Principalmente quando se trata de ver a natureza. Continuo visitando parques e sítios turísticos (fui ao Parque Manuel Antônio e adorei), mas meu olhar mudou. Dentro do parque, essa situação era recorrente: alguém vê um macaco capuchinho, e logo tem dez câmeras profissionais e um bolo de gente em torno dele. Pobre bichinho. Isso tira muito a magia da natureza!

Quando morei na fazenda, eu tinha acesso à vida selvagem o tempo inteiro. Eu vi umas vinte espécies de pássaros diferentes, um quati que morava no telhado do bar e roubava bananas, esquilos, cobras, sapos. De longe, o que mais me tocou foi a família de veados que vivia livre nos arredores da fazenda. Os vi algumas vezes passeando por lá, e o mais maravilhoso de tudo foi o dia que a mãe se aproximou de mim e pude tocá-la! 

Vou lembrar para sempre desse momento inesperado e da sorte tive. Não existem palavras que expliquem a emoção de você ser escolhido por um animal selvagem, olhar nos olhos dele e interagir dessa forma com a natureza.


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8. Trabalhar no campo te torna mais consciente 

A comida era quase 100% orgânica — alguns produtos vinham de fora como o arroz e o feijão. Todos vegetais e frutas que consumíamos vinham da horta onde trabalhávamos, que era o coração da fazenda. Tínhamos tudo: beterraba, cenoura, espinafre, rabanetes, alface, hibisco, rúcula, coentro (prepare-se, ele está em todas comidas), graviola, abacaxi, banana, cacau. E que sabor! 

Você entende o esforço que é necessário para fazer uma cenoura crescer, o trabalho que dá manter uma horta limpa e organizada, as dificuldades que as mudanças climáticas impõem para o cultivo de alimentos. Repensei todos os dias a forma como eu consumia produtos e também como me alimentava.

Pude perceber meu corpo, e quando retornei para a cidade e voltei a consumir alimentos industrializados, entendi que estava tendo uma alimentação muito equilibrada, sem conservantes, e como isso fez bem para meu corpo e para a minha mente. 


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9. Você não está no controle

Quando eu vivia na cidade, eu tinha uma vida estruturada, em que eu controlava quase tudo - onde comer, com quem passar meu tempo livre, o que cozinhar para janta. Na fazenda, perdi o controle de tudo: do clima, da comida, dos horários, das atividades.

Para os voluntários na fazenda, as atividades já eram estruturadas pelo coordenador, e também não precisávamos nos preocupar em cozinhar ou fazer compras, pois tudo estava incluso no programa. Tudo o que precisávamos fazer era aparecer nos horários determinados. Parece bom, né?

Eu não precisava fazer planos. Esse foi, de longe, dos maiores desafios para mim. Vivi com o desconforto de não tem nada no meu controle. Entendi que não podemos controlar tudo, e que está tudo bem. Quando vivemos de um jeito que não planejamos, encaramos nossos medos, questionamos nossos gostos pessoais e a nossa maneira de encarar o mundo.  

É uma ilusão pensarmos que podemos controlar tudo na vida. A única coisa que controlamos de verdade é a nossa reação em frente às situações. Quando tentamos controlar tudo a nossa volta e algo inesperado acontece (e vai acontecer), nos frustramos tanto. Isso aconteceu repetidas vezes comigo no passado, e sofri muito, sem necessidade. Quando perdi o controle das situações na fazenda, me senti muito mais preparada para os desafios da vida, com uma tolerância muito maior à frustração. 

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Uma experiência de imersão não tem preço. Vai ter desconforto sim, mas com eles crescemos e aprendemos. Não tem agência de viagem que proporcione isso! 

Faça um voluntariado, se deixa surpreender. Existem inúmeras oportunidades que você encontrar utilizando a Worldpackers: 

São lembranças que vão ficar marcadas na memória e no coração para sempre!



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Bruna

Set 11, 2020

Decidiu botar a mochila nas costas e ir explorar o mundo. Sem data de retorno. Designer, ama cinema, música e bons livros. E um cafezinho também!


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