Autoconhecimento: a maior aventura da minha vida

Muitos viajam em busca dos mais deslumbrantes paisagens, escalam montanhas, mergulham e voam, mas quantos têm a coragem de explorar o seu interior?


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Torisa

Jun 19, 2019

Nascida em Taiwan, criada no Brasil, morando atualmente em Taipei. Estou viajando e me mudando por esse mundão há cerca de três anos. Enfermeira, a...

inspiração para o autoconhecimento

Conheci a minha mãe pela primeira vez no fim de 2018. Pra quem já leu alguns dos meus artigos, sabe um pouco da minha história, mas pra quem ainda não conhece, vou resumir um pouco para vocês. 

Nasci em Taiwan e me mudei para o Brasil quando tinha 5 anos por questões familiares.  Meus pais se divorciaram quando eu ainda era bebê, a minha mãe foi proibida pelo meu pai de manter contato comigo e por ele estar sempre se metendo em encrenca, a minha avó paterna resolveu me levar para o Brasil. 

Cresci sob as expectativas surreais de uma tradicional família taiwanesa e com a pressão de me tornar tudo menos o que o meu pai era. 

Por essas e tantas outras confusões, me vi aos 19 anos, sem outra opção a não ser deixar a minha família e seguir o meu próprio rumo, me formando enfermeira aos 21 anos e trabalhando em um dos maiores hospitais de São Paulo. 

Apesar de sentir orgulho da minha carreira e da reviravolta que dei na vida, ainda tinha muitas questões emocionais a serem exploradas e trabalhadas, além do vazio enorme que sentia.


Torisa em uma escalada, exercício de superação

O começo da transformação

Com tudo isso acontecendo, resolvi largar a minha vida em São Paulo há quase quatro anos e estou pelo mundo desde então, dividindo o meu tempo pela Europa e pela Ásia.

Foi apenas após um ano morando em Taiwan que decidi procurar a minha mãe. Estava sentada no parque conversando com um amigo meu, já tinha o número dela em mãos e resolvi ligar para ela. 

Conversamos por quase uma hora e mantivemos contato apenas por telefone por mais um ano, até que tomei coragem e resolvi que não queria virar o ano de 2018 com mais essa pendência. 

O reencontro foi breve, mas curioso e esclarecedor. Ela é tão diferente do restante da minha família e quão engraçado foi poder identificar as mesmas características de personalidade em alguém que não via há mais de 20 anos! Fui buscando enxergar uma parte em mim que não conhecia e descobri através das palavras dela que o importante é que eu seja eu, que eu me pareça e me identifique comigo mesma.

Esse ano resolvi comemorar duas datas tão significativas para mim com ela, o dia da mães e o meu trigésimo aniversário. Passei um fim de semana inteiro com ela conhecendo tias e primos, descobrindo novas fofocas e dramas de família e mais uma vez senti gratidão. Gratidão pela vida ter acontecido da forma que aconteceu, por ter tido a oportunidade de conhecer dois mundos e duas famílias tão diferentes e pela força necessária que encontrei para poder traçar o meu próprio caminho. 

Entendi que o vazio que eu sentia jamais seria preenchido por outro ser humano, mas sim através do autoconhecimento, se aceitando por completo com toda a história que cada um temos, reconhecendo as nossas imperfeições e melhorando a cada dia, esses são os detalhes que realmente importam. 

Entendi que, por mais careta que seja, tudo acontece por uma razão e compreender o nosso passado é tão importante quanto tomarmos a responsabilidade em decidir o nosso futuro.

É um processo doloroso e muitas vezes lento, mas cabe a nós decidirmos se iremos deixar o nosso passado determinar o nosso futuro ou se teremos a capacidade de transformar todas as nossas experiências negativas em positivas e aproveitar para deixar que a luz tome lugar nos nossos momentos mais obscuros e que essa luz se reflita mundo afora através dos nossos atos.


É preciso se desafiar

É preciso tentar

Enquanto eu passeava com a minha mãe, ela me levou a um dos maiores templos budistas de Kaohsiung, cidade ao sul de Taiwan, onde ela frequentemente faz alguns trabalhos voluntários. Foi incrível ser apresentada a todos os amigos dela com tanto orgulho e o quão boquiabertos todos ficaram quando viram que ela já tinha uma filha crescida prestes a virar trintona. 

É inevitável a curiosidade alheia e foi impossível se esquivar de tantas perguntas sobre nós, mas diferente de mim, a minha mãe não demonstrou nenhum sinal de vergonha em dividir a nossa história. 

Hoje eu não considero nada do meu passado como motivo de vergonha. Muito pelo contrário, hoje consigo enxergar com clareza que foi pelas dificuldades que encontrei desde criança que me fizeram a pessoa que sou hoje e que por mais cicatrizes e traumas que ainda preciso aprender a superar, eu com toda a certeza não mudaria nada do meu passado.

Quer saber de um segredo? Existe algo extremamente libertador quando enfrentamos o que mais nos amedronta. O processo pode ser árduo e mexer em cicatrizes é muitas vezes doloroso, mas uma vez que aprendemos ao menos a reconhecer os nossos maiores medos, poder olhar pra trás sem sentir a mesma dor, tiramos um peso enorme das nossas costas e sentimos tanto orgulho pelo quanto que conseguimos evoluir e amadurecer. 

Eu precisei de quase dois anos de terapia antes de sair do Brasil e muitas viagens, momentos sozinha onde aprendi a me amar e amar a minha companhia para conseguir sentir um pouco de paz interior.


O autoconhecimento leva tempo

Apesar de sabermos a importância em sermos positivos, é um tanto impossível ser sorridente e feliz o tempo inteiro. Tive meses em que tudo o que fazia era ir da casa ao trabalho, fazia apenas o necessário e demorei muito pra entender que não tem problema nenhum precisar de um tempo para recarregar as energias. 

Aprendi com muita dificuldade que não podemos nos cobrar tanto, ninguém é perfeito o tempo inteiro, todos temos dias e meses ruins e tudo bem! Se respeite e aceite o tempo que você precisa para descansar, repensar e analisar a sua vida, ganhar novas perspectivas e então dar a volta por cima.

Viajar para se conhecer

Viajar é sempre uma excelente maneira de se conhecer melhor. Situações novas, enfrentando dificuldades e nos adaptando a um ambiente desconhecido, faz com que novas habilidades sejam reveladas e sem sombra de dúvida nos vemos sem saída a não ser evoluir e amadurecer. 

Mesmo que você não tenha a oportunidade de embarcar em um mochilão pela Europa, a boa notícia é que se autoconhecer não exige passaporte, dinheiro e muito menos de uma mochila nas costas.

Você pode embarcar na maior aventura da sua vida exatamente onde você está, no sofá da sua sala, na sua cama ou sentado em frente ao teu computador. Vá a uma caminhada ao parque, ao cinema ou dê uma volta no quarteirão sozinho e aprenda a curtir a tua companhia. Medite se sentir que vai ajudar no processo. 

O importante é se abrir a explorar o seu interior, identificar os problemas e querer melhorar. Nem sempre vamos conseguir consertar todos os detalhes, tenho ciência de que algumas das minhas cicatrizes serão para vida, mas acredito que o importante é identificar o problema e saber quais situações desencadeiam determinados comportamentos. 

Aprenda a se comunicar explicando ao outro o motivo das suas reações e aprenda a se desculpar pelos seus atos, mas, para isso, você precisa se conhecer melhor.


Torisa e sua mãe

O passado ficou para trás e cabe a nós decidirmos como agir no nosso presente e sermos inteiramente responsáveis pelo nosso futuro. 

Larguei a minha vida e a minha carreira no Brasil para me conhecer melhor e não me arrependo de nenhum segundo vivido desde então, pois foi apenas assim que me tornei e continuo me tornando em uma pessoa melhor. 

E você, que tal embarcar nessa aventura e se conhecer melhor também? 


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Torisa

Jun 19, 2019

Nascida em Taiwan, criada no Brasil, morando atualmente em Taipei. Estou viajando e me mudando por esse mundão há cerca de três anos. Enfermeira, a...


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