Voluntários no terraço do Nómada Hostel

1. Funções, tarefas e horários

A vida profissional de um voluntário acaba sendo mesclada ao tempo livre, ainda mais quando se vive em um lugar onde em nada difere de um lar.

Minhas funções no Nómada eram estáticas no papel, mas fluidas em minha cabeça. Me explico.

Os horários são divididos entre os voluntários antes da semana começar. Eu e meus outros três companheiros de habitação sabíamos que dia e até que horas estaríamos trabalhando desde o primeiro dia, promovendo assim a organização de passeios nos dias livres.

Os turnos eram três: manhã, tarde, e noite. De maneira que trabalhando no turno da manhã, já depois do almoço teu tempo é livre. O mesmo acontece com os outros dois turnos.

A questão aqui é, quando se está em um lugar que se ama tanto, com pessoas que tocam tua alma diariamente, o sujeito se encontra compelido a continuar ajudando. Não por força ou coação, mas por desejo mesmo. A vontade de seguir ajudando o companheiro do próximo turno era imensa, porque era assim que um Worldpacker se sentia no Nómada: parte de uma equipe formada com base nos bons sentimentos.

Se a ti te cabe o turno da manhã, é melhor já ir preparando a coleira da Wachita. Aviso: essa cadela pode ser mais esperta que você! Afinal, é ela quem vai te levar para a padaria, e não ao contrário.

É a Wachita e seu ímpeto de filhote que vai te arrastar na coleira por uns dois ou três quarteirões até a padaria onde vais comprar o pão e o bolo do café da manhã de todos. Não só dos hóspedes, mas dos voluntários e trabalhadores também.

O turno da tarde era especial. Cada dia tinha uma tarefa diferente, além de repetir a função de recepcionista do turno anterior. Dependendo do dia, lhe tocava limpar a cozinha profundamente, ou varrer e dar um jeito nas latas de reciclagem do lado de fora, ou organizar a varanda onde as pessoas curtem seu tempo livre... sempre com toda a calma do mundo, claro.

Era no turno da tarde que as pessoas chegavam e iam embora com mais frequência. Claro, há de levar em conta que quando eu digo tarde estou me referindo ao período entre as 15h e às 23h, o horário mais movimentado. Depois era só descansar e correr pro abraço.

Quando chegava a noite, o felizardo que tivesse que trabalhar era só sorrisos. Acontece que depois de fechar o terraço à meia noite, fazer e limpeza do espaço, e deixar preparado as louças para o café-da-manhã do dia seguinte, o encarregado noturno pegava o alarme remoto da campainha do Hostal e se metia em um quartinho no porão para dormir.

A noite passava tranquilamente quando não havia nenhum tremor de terra, que para os chilenos é tão comum. Quando hóspedes saíam de festa, a função do voluntário no turno da noite era acordar com a campainha e ir abrir a porta para os que retornavam da bebedeira. Sempre, sempre cenas divertidas.

O cotidiano como Worldpacker é uma graduação por turno.

Voluntários do Nómada Hostel

2. Estrutura

O Nómada era dividido em três espaços diferentes. O porão, onde ficavam os voluntários e os encarregados da administração, era o lugar menos frequentado da casa. Era onde recebíamos informações das nossas duas chefas e anfitriãs, Dani e Nati. 

A onda mesmo era o terraço do lado de fora, era lá também que recebíamos instruções sobre o quê e de que forma fazer, mas sempre na maneira descontraída e familiar sob a qual éramos sempre tratados.

Esse terraço fazia parte do primeiro andar da casona antiga onde o Nómada foi criado. Era também nesse primeiro andar que ficava a cozinha, banheiros de hóspedes e de todos, a recepção, e o salão do café da manhã. Era por aí que chegavam os hóspedes e que as anfitriãs recepcionavam os novos voluntários.

O segundo andar da casa era só de quartos individuais. Eram habitações com uma só cama matrimonial, algumas feitas para famílias, outras para receber amigos que desejassem dividir um quarto só entre eles.

Era no segundo andar também que ficava a lavanderia, onde lavávamos roupas (pessoais e de cama). Os voluntários e funcionários especialmente designados para isso tinham acesso livre a essa parte.

Eu me lembro bem de cada parte daquela casa. Do quartinho de voluntários no porão ao banheiro pequeno que ficava na lavanderia, passando pela cozinha onde tantos almoços foram feitos e tantas bebidas preparadas. Bebidas essas, aliás, feitas para serem desfrutadas no nosso queridíssimo terraço, com mesas e cadeiras que até hoje marcam os melhores momentos da minha viagem.

A experiência de Valparaíso é única. Uma cidade feita de magia e boa gente, e ter tido o Nómada como quartel general foi um verdadeiro privilégio.

Terraço do Nómada Hostel

3. Relação com staff, hóspedes e anfitriões

Éramos quatro voluntários e dois administradores, mas nenhum de nós via essa distinção. Lucho e Capu eram seus nomes. Um chileno e uma francesa que em nada diferiam do resto da equipe, tanto em termos de amizade como de entrosamento. Foram eles que nos disseram o que haveria de fazer desde o primeiro dia.

Fora o relacionamento entre funcionário e voluntário, foi também deles que eu adquiri boa parte da cultura que me foi possível absorver nessa experiência. As gírias chilenas, a mania de comer queijo tomando vinho, cada trago compartilhado com eles era uma experiência única. Foram a diferença entre um chefe e um guia, na mais clara das comparações.

Eu e meus companheiros éramos como hóspedes. A diferença, no entanto, era que vivíamos ali. Éramos quatro visitantes que decidiram ficar por muito tempo.

Essa nossa capacidade de passear entre os meios da administração e dos hóspedes foi o que nos permitiu criar verdadeiros laços de amizade com muitos daqueles que passaram poucas noites conosco.

Desde o primeiro momento estava em nossas mãos cuidar para que a reserva seja iniciada e terminada sem nenhuma falha, e contávamos com a boa relação para que isso acontecesse.

A cópia do passaporte, o recebimento do dinheiro, manejar o caixa, recolher os lençóis depois do check-out, tudo isso era feito não só para o gosto daquele que chegava, mas também para o amigo que viria no turno depois do teu. Dos grandes amigos que fiz em Valparaíso, uns bons foram só passageiros.

Finalmente, as anfitriãs. Duas irmãs, la Nati e la Dani, elas eram geniais! Comandavam o Hostal com o punho que deveria ser comandado sem nunca perder o tato com seus funcionários e voluntários.

Antes delas eu tinha trabalhado como voluntário apenas em Buenos Aires, e foi talvez por culpa delas que o espírito viajante e mochileiro em mim seguiu firme e forte.

Veio dessas duas irmãs e da forma como conduziam seu negócio a vontade imensa de, um dia, ter eu mesmo a chance de retribuir ao mundo um pouquinho do me foi proporcionado. 

Passeio de voluntários por Valparaíso

4. Benefícios recebidos como Worldpacker

Um Worldpacker não ganha só o quarto e a comida. Enquanto vivi no Nómada Hostal, a comida não só estava disponível a qualquer hora do dia e qualquer dia da semana, como também éramos encorajados a cozinhar para nós e todo mundo.

Tínhamos direito ao café da manhã completo. O nosso e o que mais fosse que sobrasse para o dia seguinte. No quarto do porão tínhamos frutas, legumes, óleo, e outros mantimentos necessários e suficientes a uma dieta balanceada. Qualquer coisa que quiséssemos extra, claramente, saía do nosso bolso.

O almoço não era fixo. Cada dia cozinhava um, mas todos os dias ajudavam todos os que fossem comer. O sentimento comunitário era fortíssimo, e isso permeava o nosso dia a dia.

Tínhamos também acesso livre à máquina de lavar e à secadora. Era de lei que se um fosse lavar algo de roupa, deveria perguntar aos demais se alguém mais tinha roupa a lavar. Era apenas um gesto mais entre os voluntários.

No final das contas, não se trata só da comida, habitação, roupa limpa, banho quente... os benefícios de ser um Worldpacker são muitíssimo mais psicológicos que físicos.

O sujeito entra uma pessoa e sai outra, com conhecimento e cultura adquiridos de maneira única. A vida te prepara para ela mesma, mas é viajando que a gente se prepara pro mundo.

5. Proximidades e localização

Valparaíso está dividida em dois tipos de zonas: os morros (ou cerros) e o plano (ou llano). O hostal que me acolheu como Worldpacker ficava nessa segunda parte.

Os morros eram a zona mais turística da cidade, mas também a mais cara. Estando localizado na parte plana da cidade estávamos mais perto dos comércios e restaurantes mais baratos, além de acesso rápido aos ascensores que nos levavam aos morros.

A uma quadra de distância estava o porto e praça principal de Valparaíso. Tudo era muito perto, se tratando de uma cidade não tão grande e ainda assim abarrotada de ofertas culturais. As boates e os bares, as lojas de bebida e os melhores restaurantes, tudo de fácil acesso. 

Voluntários em ponto turístico da cidade

6. Tempo livre

O meu tempo livre em particular foi usado para autodescobrimento. Eu dedicava minhas manhãs a escrever e produzir literatura. Hoje, graças a esse período que passei no Nómada, me entendo como escritor e dramaturgo.

Foi um período não só de vivência interpessoal, mas também intrapessoal. Conheci este que vos escreve como nunca antes tive a oportunidade de fazê-lo.

Terminado o meu momento diário de trabalhar no meu livro pela manhã ou pela noite, eu me dedicava a estar com as outras pessoas da casa. Meus amigos e companheiros de quarto, os administradores, e as anfitriãs, que, por mais que fossem autoridades ali, nunca permitiram que se criasse um clima distante entre todos.

Os dias livres permitiam a mim e aos outros Worldpackers conhecer a cidade e a região livremente. Ser um voluntário não significa deixar de ser um turista!

7. Precisa falar inglês?

O inglês é uma obrigatoriedade, assim como deve ser. Não é possível trabalhar em um hostel sem saber se comunicar com a maioria dos visitantes que não falam uma palavra do espanhol. Você pode muito bem tentar se virar sem o inglês, e conseguirá até certo ponto, mas perderá grande parte da aventura.

Muitas festas e saídas são feitas junto com os hóspedes e muitos deles vêm de países onde o espanhol não é uma língua comum. 

Mesmo os estadunidenses ou canadenses que vemos às vezes têm dificuldade em se comunicar livremente em espanhol, os turistas asiáticos então nem se fala. Para aproveitar de verdade a experiência e sacar dela o máximo possível, o inglês é necessário.

O brasileiro, por outro lado, tem mania de achar que sabe falar e entender espanhol. Eu vi muitos compatriotas na viagem que não se esforçavam em aprender o idioma porque achavam que “conseguiam se virar”. Isso é um erro! Ainda mais em se tratando do confuso e particular espanhol chileno.

O idioma espanhol é outro completamente diferente do português, e, ainda que tenha suas similaridades, não é possível desfrutar de uma boa conversação e prazerosa tarde entre amigos sem ter se empenhado em aprendê-lo mesmo que um pouco. 

Amigos feitos no Nómada Hostel

8. Dicas para se dar bem no hostel

Sair como viajante é meio caminho andado, não ter saudade de casa é quase todo o resto. Com isso eu quero dizer que deixar o lar não significa abandoná-lo, muito pelo contrário. Deixar a casa e o estado onde estão a família e os amigos quer dizer ir em busca de outros, expandir seu espaço de influência e permitir-se sentir em casa seja onde for.

É importante dedicar-se ao trabalho não como uma obrigação, mas porque é o que lhe dá prazer. É lavar os banheiros não porque eles têm que ser limpos, mas porque outra pessoa já o limpou antes para que você o use. É encontrar um copo sujo na cozinha e lavá-lo mesmo que não tenha sido você que usou, porque no outro dia o teu prato sujo apareceu limpo sem você nem saber o porquê. É tomar conta das reservas como se o negócio fosse seu, porque, afinal, você mora lá.

Para ser um bom Worldpacker basta separar-se da noção de turista e sentir-se como um morador. Claro que haverão teus momentos de sair turistando por aí, mas nunca se esqueça que o lar é onde mora o coração. Aprenda a levar o teu contigo sempre! 



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João

Olá! Me chamo João, sou natural do Rio de Janeiro, formado em jornalismo e comunicação social. S...

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Ago 22, 2018


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