Liberdade, diversidade e autoconhecimento: voluntária LGBT pelo Brasil


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Mariana

Apaixonada por tudo que é transformador, que chega pra acrescentar e colaborar. O mundo é de troc...

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Out 19, 2018

Nesse podcast a Expert Dyosefan Rocha fala da experiência de ser uma voluntária LGBT pelo Brasil e conta sobre aprendizados e dicas para os viajantes.

Brazil Podcast em:
português

Muito bem vindos viajantes! Eu sou a Mariana, da Worldpackers, e a gente está trazendo mais um podcast aqui para vocês. Hoje o tema é super, super legal.

É sobre a Dyosefan Rocha, ela é transexual e viajou seis vezes pela Worldpackers. Tem várias histórias para contar sobre as experiências que ela passou dentro do próprio Brasil.

Dyosefan, muito obrigada pela sua participação aqui na Worldpackers, e dessa vez a gente vai falar de um tema super diferente, né, que é:

Como é ser transexual e viajar pelo mundo como voluntária?

Eu queria agradecer pela sua participação, por você estar aqui com a gente hoje, pela disponibilidade, pelo tempo e pela energia também, que eu sei que sua energia é super demais!

Eu queria que você começasse fazendo uma breve apresentação de você, falando seu nome, sua idade, de onde você é e o que você fazia antes de você viajar.

Dyosefan: Eu me chamo Dyosefan, eu tenho 24 anos e, antes de ser voluntária, eu sou técnica em enfermagem.

Resolvi fazer o voluntariado para me aprofundar mais dentro de mim, para conhecer mais sobre mim. Porque a cada viagem que eu fazia, eu descobria algo novo, que eu não sabia que existia.

Mariana: Legal! E como foi para você encarar essa mudança de sexo e viajar, assim, tomar conta da sua vida e fazer as suas escolhas?

Dyosefan: Quando se começa essa transição, a vida da gente também tem transição. Não é só o físico da gente, é um total, porque quando você começa a mexer com o hormônio, tudo muda na sua vida.

Eu tinha medo, sobre o site Worldpackers, e aí resolvi entrar para saber mais sobre o site. Porque até então, naquela época, eu só tinha visto voluntariados envolvendo ONU, coisas que seriam mais no interior do Brasil.

Eu não tinha conseguido para fazer, a não ser voluntariados de hospitais e outras coisas da saúde. Não vi nenhum outro na área do turismo.

Também não sabia que as pessoas transexuais como eu poderiam trabalhar. Eu queria quebrar muitos estereótipos. Era tão engraçado quando as pessoas chegavam e viam uma transexual trabalhando, era um choque de realidade. Isso foi muito bom, eu gostei muito disso, eu não esperava receber uma reação tão boa quanto a que eu tive.

Mariana: Eu queria que você começasse a contar para a gente porque que você resolveu viajar. Você falou que era muito por esse autoconhecimento, né? Para falar: “Poxa, eu moro numa cidade pequena. Quem sou eu e o que as pessoas estão me cobrando?”

E quando que deu o estalo? Aconteceu alguma coisa na vida que você resolveu ir ou foi depois de algum processo?

Não sei, depois de alguma fase dos seus estudos ou do seu trabalho que você resolveu? Você tinha quantos anos também nessa época?

Dyosefan: Eu tinha 18 anos e estava trabalhando em um hospital filantrópico na época. Eu tinha perdido minha avó nesse mesmo hospital que eu trabalhava. Então foi tudo muito tumultuado, eu precisava viajar mesmo para dar uma espairecida, precisava respirar, sabe?

E ao mesmo tempo eu queria conhecer novas coisas, novas pessoas, sabe? Algo envolvido com turismo, porque eu sempre gostei muito de conversar. Antes eu tinha trabalhado em lojas, então eu sempre gostei muito de lidar com as pessoas.

Nossa, não sei nem como te dizer. Foi como um anjo que caiu do céu, eu tava precisando mesmo naquele momento espairecer.

Mariana: Rolou algum medo, alguma insegurança? Já que você foi para um outro lugar, fora da sua cidade, longe da sua família. Alguma insegurança não só pela viagem, mas pelas pessoas não aceitarem a sua opção sexual?

Dyosefan: Na verdade, na época não. Porque eu não tive medo, para falar a verdade, foi muito...eu não sei como explicar isso. Meu Deus, vamos lá...era como se fosse um obstáculo para mim. Eu não senti medo. Tipo, eu vou e vou. Eu sou assim, quando eu me jogo em uma coisa, me jogo totalmente.

Sobre a minha família, a minha mãe é do norte e meu pai é de Minas, então a gente sempre a viajava para Curitiba, onde minha mãe se mudou depois. A gente sempre ficava viajando, então eu meio que já acostumei com esse negócio de viajar, de pedir informações. Sempre quando eu viajo, eu vou sozinha, então foi muito fácil desse estilo de vida independente, a viajar, sabe?

Então eu não tive medo para falar a verdade. Eu tive só um pouco de desconfiança de como as pessoas reagiriam comigo, mas eu não tive medo, eu sempre mantive em mim o meu ego muito reforçado, para enfrentar as coisas.

Então eu meio que já me preparo, sabe?

“Opa, peraí, vou meditar, vou colocar meus chakras em ordem”

Então foi isso, já tenho que viajar preparada para o que está esperando.

Mariana: Isso que você falou é muito importante, né? Porque quando a gente vai pra outro lugar, mesmo que seja no nosso país, a cultura é diferente. Mesmo que seja uma cidade do lado, aqui em São Paulo é diferente do Rio, então você provavelmente vai conhecer gente boa e vai conhecer gente ruim.

E aí cabe muito a gente, como você falou, essa preparação pessoal e falar: “Independentemente de como essas pessoas vão reagir comigo, eu vou ser eu e eu gosto dessa forma.”

Acho que você ter isso muito equilibrado dentro de você, faz total diferença durante a sua viagem.

Dyosefan: Fez muita diferença, porque lidar com pessoas de todos os tipos, todas as culturas, nossa, é muito complicado às vezes. Então você tem que ter um equilíbrio mental muito grande, sabe?

Porque de qualquer jeito, com ou sem preconceito, as pessoas são complicadas. O ser humano é complicado.

Mariana: É verdade! Vamos falar agora das suas viagens, você já fez seis voluntariados. Isso é incrível! Poucas pessoas fazem tantos assim, acredita?

Você que é super desbravadora, conta aí para a gente, como foi o seu primeiro destino, como você escolheu e por que você escolheu ir para lá?

Dyosefan: Eu comecei em Belo Horizonte, no Samba Rooms Hostel. Eu fiquei um mês lá, que foi em janeiro de 2016. Foi muito rápido, eu fazia somente a recepção, eu não limpava, eu só recebia e preparava o café da manhã. Era super tranquilo.

Foi muito legal de trabalhar, eu fiquei apaixonada, falei: “Nossa, quem me dera se todos fossem assim”.

Eu trabalhava 12 horas. Eu pegava a noite, 8 horas da noite, e entregava no outro dia, 8 horas da manhã. Esse foi o mais pesado entre os horários que eu fiz, mas muito tranquilo, porque era só recepção, então era muito tranquilo.

Belo Horizonte é uma cidade mais parada sabe, não tem tanto movimento. As pessoas chegam, vão para Inhotim, para Diamantina, pra São João Del-rei...não tem aquele acúmulo de pessoas.

Mariana: Por ter sido seu primeiro voluntariado, você acha que teve algum problema por sua opção sexual? Como você foi recebida pelos outros voluntários, anfitriões ou até pelos próprios hóspedes?

Dyosefan: Os anfitriões são e o Leo e o Dani, foram muito amáveis comigo, muito educados. Eles também viajaram muito, então são muito mente aberta e eu gostei muito. Eu me dei super bem com a equipe. Na época tinha só eu e uma menina de São Paulo, só nós duas de voluntárias, então foi super tranquilo.

Mariana: Provavelmente os donos dos hostels dos lugares vão te receber muito bem. Muita gente fez muito isso, né? De viajar pelo mundo e aí depois resolveu abrir seu próprio negócio. Então já são pessoas um pouco mais de cabeça aberta do que alguém que, por exemplo, tenha trabalhado a vida inteira num só lugar e não tenha conhecido muitas coisas.

Então, acho que essa comunidade da Worldpackers acaba criando um ambiente um pouco mais receptivo, tanto para o viajante como para o anfitrião.

Você falou que você trabalhava na recepção, a partir das 8 horas da noite até o dia seguinte de manhã. E o que você ganhava em troca dessa sua colaboração?

Dyosefan: Eu dormia em quarto compartilhado, com, se eu não me engano, 12 pessoas. Mas eu podia dormir nos quartos privativos quando não tinha gente e era muito bom isso também. Então a maior parte do tempo na verdade eu dormia mais nos quartos privativos porque geralmente final de semana dava aquele movimento, mas era muito tranquilo.

Eu dormia muito na sala também, porque a sala era muito grande e eu gostava. Eu não tive problema.

Mariana: Ah, legal, bem legal. E depois desse seu voluntariado, você já emendou em outro ou você voltou para casa e fez de novo, como foi isso?

Dyosefan: Eu voltei para casa em fevereiro, quando chegou maio eu viajei para o Rio, foi só uns diazinhos, né? Foi aí que fiquei maio, junho e julho. Eu voltei para minha casa, dei uma respirada e em agosto eu voltei para o Rio, mas em outro hostel.

Eu fui para o Quintal do Maracanã Hostel, lá eu também fazia só recepção, não fazia mais nada. Eu nem ligava para limpar, porque já tinha gente no hostel limpando. A recepção era só seis horas, foi muito tranquilo.

Em troca eu morava no quarto compartilhado, lá não tinha quarto privativo. Foi na época das Olimpíadas, eu lembro.

Eu não tenho do que reclamar. Depois eu lembro que eu não queria mais ficar porque o Rio estava muito cheio e eu não gosto de lugar muito cheio, eu passo mal.

Eu apliquei para um mês mas acabei ficando um pouquinho mais, quando começou a encher, eu fui embora, pensei “Quando tiver mais tranquilo eu volto”, e quando eu voltei, eu trabalhei com argentinos no Rio de Janeiro e com eles eu fiquei quase um ano e meio.

Foi aí eu comecei a trabalhar com eles. Eles têm dois hostels e eu comecei a trabalhar nos dois. Então acho que esse foi um dos hostels que eu trabalhei mais. Trabalhei como bartender e fiz de tudo, até limpeza.

Então, me identifiquei, eu queria ficar. Quando se está de viagem só para conhecer, você não tem expectativa a longo prazo, mas como eu tava lá, eu queria ficar lá. Então foi assim, muito diferente.

A minha rota de viagem mudou, então foi muito bom.

Também fiz muitos contatos, muitos amigos e um dos anfitriões hoje é um dos meus melhores amigos pra vida, então foi muito bom, muito bom mesmo.

Mariana: Então você fez, dos seis, dois no Rio de Janeiro, um em Belo Horizonte e onde foram os outros?

Dyosefan: Nesse período, que eu já estava no Rio, trabalhando no Mojito Hostel, não satisfeita, apliquei para outro no Rio mesmo, eu achei que eu ia me matar.

E aí que fui pro Favela Experience, que também é uma ONG no Vidigal. Só que eu fiquei uma semana, porque eu não consegui lidar com o calor e com os três trabalhos juntos. Tava muito pesado para mim. Tanto que nessa época, eu passei mal, tive que vir para minha casa, foi um problema. Ao mesmo tempo, foi uma coisa boa, não foi coisa ruim.

Mariana: E aí, o Vidigal é uma favela lá no Rio de Janeiro, né? Você não ficou assustada em nenhum momento?

Dyosefan: Nenhum momento, porque entre as favelas que existem no Rio, foi a mais tranquila. A Babilônia também. Babilônia e Vidigal foram as mais tranquilas.

A Babilônia está localizada no Leme, né, para quem não conhece, e é muito tranquilo.

Foi muito tranquilo, eu passei uma semana lá, mas eu sempre ficava levando o pessoal no Morro 2 Irmãos, então sempre estava passando lá.

Acaba que a gente já conhece, né? A gente conhece o mototáxi, conhece alguém do mercado e já vai fazer contato. Foi muito engrandecedor.

Mariana: Eu acho que quando você vai viver aquela cultura local, você vive de uma forma simples, né? Como morador daquela região. Como você falou, acabou criando uma comunidade ali. Assim, você vai criando raízes, referências. É muito gostoso, você poder sair um pouco da sua e conhecer uma nova, né?

Se abrir para uma nova cultura, uma nova experiência.

Acho que às vezes a gente fica com um pouco com medo, né?

“Ai se as pessoas não gostarem de mim, se você não gostar do lugar, se isso acontecer, aquilo.” Mas poxa, e se der tudo certo sabe?

E se der tudo certo? E se você ficar apaixonada pelo lugar? E se você conhecer pessoas incríveis?

Eu tenho certeza que você teve disso, né? Essa ligação com o ser humano.

Dyosefan: Quando eu fui para o Rio de Janeiro, quando eu cheguei no Rio, o impacto social foi muito maior do que esperava.

Quando a gente fala que vai para uma cidade de praia, primeiramente a gente pensa em um bem estar.

Quando eu cheguei lá, tive um choque de realidade. Porque eu sou do interior, então a gente vê muito na TV, mas não é próximo.

Então você começa a ver mendigo, aflitos, doentes na rua. Isso mexe muito comigo porque eu sou muito coração, quem me conhece sabe.

Então isso me fez despir todos os preconceitos, sabe? Então, foi um choque de realidade o Rio para mim.

Mariana: Porque o Rio tem um pouco dessa fama, né? Tudo bagunçado, as pessoas são malandras, mas não é todo mundo, né?

Acho que se você confiar, se você estiver em uma boa energia, as coisas boas vão voltar para você.

Dyosefan: Eu sou muito energia, sabe, eu sou muito esse negócio de energia. Libriana! Então eu consigo sentir. Quando não está boa a energia, e isso é muito bom para você separar as pessoas na sua vida.

Então, para isso, você tem que estar bem consigo mesma. Primeira coisa, você tem que estar bem para você poder ajudar outras pessoas.

Eu falo até hoje que foi um choque, e ainda continua sendo um choque de realidade para mim.

Mariana: E você falou que você foi atrás justamente desse seu autoconhecimento. Como é que você se sentiu, assim, você realmente buscou o que você estava procurando. Como você sentiu em relação ao empoderamento?

Dyosefan: Na verdade, vou ser bem clara, eu tava procurando uma coisa e acabei achando outra.

Eu procurava me conhecer mais, mas ao passar dos dias, das conversas, amigos, a gente vai desligar um pouco daquela nossa expectativa, sabe?

Então chegou os três meses de viagem e eu não tinha muita expectativa.

“Nossa, eu pretendo fazer isso”. Não, eu não tinha. Comecei a viver os momentos, o dia, hoje e agora.

Quando eu comecei também, que aqui era mais movimentado. Sabe, a pessoa chega, você faz amizade e você sabe que ela vai embora. Então a única expectativa que eu tinha era de não me apegar a alguém, e essa pessoas irem embora. Era uma expectativa que eu tinha, de querer continuar com aquela amizade para mim.

Então acho que esse foi o único empoderamento que eu tive no momento.

Mariana: Mas você acha que depois dessa experiência, isso te deixou mais forte, mais empoderada na vida, para você fazer o que você quiser?

Dyosefan: Com certeza, hoje eu sei dar checkout em qualquer pessoa que eu não quero na minha vida!

Mariana: Que bacana! Mas é isso, a gente tem que fazer filtro, né? Que lições você pode contar pra gente que você tirou das suas experiências durante os voluntariados?

Dyosefan: 

Respeito: Mais aos outros e respeito a mim mesma.

Espiritualidade: minha espiritualidade alavancou de um nível 0 a 10.

Amizade: saber selecionar as pessoas.

Antes, eu não sabia muito, por não ter muitas pessoas próximas a mim. Então eu não sabia.

Mariana: Você falou que teve um anfitrião que você ficou amiga até hoje, né?

Dyosefan: Para falar a verdade, de todos, mas os mais próximos mesmo, assim, de mandar mensagem, foram três. Cada vez que eu vou pro Rio, eu vou para o Mojito Hostel.

Agora eu sai de um voluntariado em março esse ano que os donos também são os meus amigos para a vida inteira. Isso em São Paulo, foi o último que eu fiz.

Foi onde eu me encontrei mesmo, porque é um hostel voltado para LGBT, então foi assim, onde eu mais me encontrei. Hoje são amigos meus mesmo, que eu posso falar, que fazem parte de uma família para mim. Foram os mais próximos a minha situação de vida, a tudo.

Mariana: Que legal, eu já fui voluntária também, né? E assim, eu assino embaixo do que você está falando. Não só dos anfitriões, das pessoas que você encontra pelo caminho, como os próprios hóspedes que você faz amizade. Os próprios voluntários que você encontra, né?

E é muito bacana você ter essa relação genuína, sabe, que quando você está fora de casa você acaba sendo família fora de casa. Você ajuda os outros e os outros te ajudam. São as pessoas com quem você pode contar.

Esse sentimento de pertencimento, né? Eu estava longe dos meus círculos de amizades e eu consegui encontrar um outro. Eu acho muito bacana como que as pessoas lá fora, fora da sua zona de conforto, estão dispostas a ajudar e você também, né?

Então é muito uma colaboração mútua assim que eu enxergo do voluntariado.

Dyosefan: Eu também concordo, mesma coisa. Tinha outra coisa também, que eu esqueci de comentar.

Como eu também já peguei um pouco de experiência, quando eu chego no lugar, eu tenho que me conectar com alguma coisa do lugar. Se não me conecto, eu sei que não vai dar certo. Eu me conectei com o Rio, sabe, naquele momento, e eu não fechei esse ciclo até hoje, eu sei que qualquer momento da minha vida, se eu for pro Rio eu vou ter quem me ajude. Em São Paulo também.

Então eles foram os círculos que eu abri, sabe, que eu não quero fechar, tampouco agora. É importante a gente manter, mesmo longe, né? As pessoas que fazem parte da nossa vida, são pelo bem, por que não?

Mariana: Falando um pouquinho mais sobre a comunidade LGBT, na sua visão, que você já passou por algumas cidades no Brasil, tem alguma cidade no nosso país que é mais tolerante?

Dyosefan: São Paulo. Por incrível que pareça.

Porque São Paulo é uma vida mais corrida, as pessoas, elas não olham tanto para os lados, não reparam tanto e eu acho que a liberdade de expressão em São Paulo é maior do que nas outras cidades que visitei, até mesmo do que nordeste e que do sul.

Então eu não sei porque, eu me sinto melhor em São Paulo do que aqui mesmo, em Minas, sabe. Eu achei que a liberdade é muito grande e tem esse negócio também, da pessoa saber se portar, né?

Não é só porque a pessoa é gay, trans, lésbica que ela vai se fazer de vítima. Quando a pessoa se porta mal, vai ser recebida mal, quando se porta bem, será recebida bem. Tem muito isso.

As pessoas primeiro olham a aparência, não tem como. Então você tem uma primeira impressão da pessoa, todo mundo. Não tem ninguém que vai falar que é diferente.

Então você mesmo, pode estar mal vestida, mal vestido e se portar bem, você já recebe um olhar diferente.

Eu pensei muito nisso em São Paulo, as pessoas em São Paulo também, são mais de cabeça aberta. Eu achei assim. O trabalho corrido e o tempo curto faz com que as pessoas reparem menos.

Mariana: Eu moro hoje aqui em São Paulo, onde eu sinto exatamente isso, que a gente não fica dando conta do que tá acontecendo com outros.

Tem o lado bom e tem o lado ruim. Ruim porque perde um pouco do contato humano, da solidariedade, do se importar com o outro. Bom porque você pode ser o que você quiser. Você consegue sair com uma melancia na cabeça ninguém vai te julgar, sabe? Ninguém vai ficar comentando se você tem uma opção sexual assim, tem a cor de pele tal, se você tem um cabelo roxo. Ninguém tá nem aí

Eu sinto muita diversidade, o que é muito gostoso.Tem muita gente diferente de você. Você pode aprender com essas pessoas e pode ensinar coisas também. Então essa troca, aqui em São Paulo é muito bacana. Cidade grande também, né?

Qual a principal diferença entre São Paulo e Rio para você?

Dyosefan: São Paulo: As pessoas são mais retraídas, mais curiosas, querem te investigar mais um pouco.

Rio de Janeiro: As pessoas falam demais, gritam muito, são pessoas mais quentes, mais calorosas, que você pode fazer uma amizade na balada para a vida inteira. Até mesmo pelo modo de se vestir.

No Rio, praia, todo mundo mais tranquilo, de chinelinho no pé. Em São Paulo não. São Paulo já é chuva e calça.

Mariana: É verdade. Todas as estações em um dia, o pessoal costuma falar isso aqui. Tem algum lugar aqui no Brasil, pelo menos que você conhece, que você não aconselha como LGBT?

Dyosefan: Tem. Cada um tem uma experiência de viagem, mas a minha pior experiência foi em Fortaleza. As pessoas lá, quando eu fui, gritavam muito e coisas feias. Eu achei muito invasivo, eu não gostei. Por não ter gostado, foi uma das cidades que eu fiquei menos tempo de viagem para conhecer.

Eu fiquei, na época, uma semana. Então nossa, eu não gostei muito não. Eu não indicaria, porque eu senti que as pessoas tinham uma mente mais retrógrada, sabe? Eu não curti muito, nem curti tanto a praia.

Mas é lindo Fortaleza, quem quiser ir, vá! Fortaleza é incrível, mas eu não indico para amigo meu não.

Mariana: Eu não conheço Fortaleza, eu conheço lugares no Brasil, mas também sempre vai ter um lugar que você recomenda e um lugar que você não recomenda.

Dyosefan: Tem uma diferença um pouquinho do Rio, porque no Rio, quando eles mexem com você na rua, eles são muito críticos, sabe? No Rio então você repara, quando é uma crítica, quando a pessoa fala bem. Em Fortaleza não, era muito rude. Você sente que a pessoa não está brincando, que ela não está fazendo crítica, que tá sendo rude mesmo. Sabe, a diferença é essa, a educação.

Mariana: Infelizmente, né? A gente vive em um país que infelizmente ainda não é 100% tolerante, tem seus preconceitos.

Dyosefan: Eu lembro de um episódio em Fortaleza, isso não aconteceu nenhum outro lugar. Eu tava com um cara na época, eu tava ficando com ele. Fomos em um restaurante e uma moça chegou perto de mim e perguntou se eu era acompanhante dele. Isso que aconteceu comigo foi uma das piores situações que passei na minha vida.

Mariana: As pessoas gostam de se intrometer, né? Aí que tá a diferença talvez, que você teve em Fortaleza para São Paulo, que é uma cidade grande que ninguém está nem aí.

Por ser uma cidade menor, aí talvez as pessoas fiquem querendo saber o que que tá acontecendo. Lá, existe muito mais regras a serem seguidas, geralmente no nordeste, né?

Não só em Fortaleza, mas tem aquela coisa da família tradicional. É aí que surge a raiz do preconceito.

Dyosefan: Vocês vão conhecer Fortaleza, depois vocês me contam.

Mariana: É isso aí, já teve alguma outra situação de preconceito que você passou durante as suas viagens?

Dyosefan: Teve, teve uma vez, antes de eu ter aplicado para Favela Experience no Rio, eu tinha aplicado num hostel na Barra da Tijuca. Eu tinha fechado já a viagem, porque eram dois sócios, um argentino e outro brasileiro.

Aí eu fui conversar com o brasileiro, gente, eu senti que ficou estampado na cara dele que ele tinha preconceito. Logo de cara eu falei para ele, sabe por que?

Eu já tenho um pouco mais de experiência e eu não sou de guardar ressentimento. Não gosto, me sinto mal, eu fico doente. Então acabei falando para ele, que ele deveria ser mais tranquilo, que ele tá numa cidade de praia.

Então, esse é o que eu acho que foi um dos hostels que eu passei, que senti o preconceito assim mesmo, de cara.

Mariana: Foi algo que ele fez, alguma coisa que falou, como aconteceu?

Dyosefan: Ele simplesmente tinha um desdém muito grande sabe, não me mostrava as coisas direito, ficava olhando para o meu pé, pro chão. Não olhava no meu olho.

Então eu senti que ele não estava satisfeito. Logo eu já disse para ele, que não iria funcionar. Ele também já estava dando desculpas do tipo “Eu tenho que pensar, então…”, não tinha que pensar, porque o outro, que era argentino, já tinha me dado a resposta.

Mariana: Infelizmente essas situações acontecem, assim, diariamente. Você tem algum conselho para dar para alguém que seja LGBT, que queira viajar também, se jogar como você, ter essa experiência?

Dyosefan: Tenho! Gente, livrem-se das expectativas más e ruins, porque se eu aprendi uma coisa, é não ter muita expectativa. Porque a gente se frustra com as expectativas que a gente tem na cabeça, que a gente propõe para a gente mesmo.

A gente se frustra na viagem, porque a gente não sabe o que espera, então se você quiser viajar, vá de coração aberto, vá de mente aberta, porque não adianta você viajar se você não está bem consigo mesmo.

Porque você precisa passar confiança e energia boa para outras pessoas, para essas pessoas confiarem em você. Então, primeiro, se conheça. Fique calmo, fica tranquilinho, tranquilinha e depois pega a estrada.

Mas primeiro, tem que manter um ponto de equilíbrio e depois viaje.

Mariana: Quando a gente está bem interiormente, a gente está segura. A gente transparece isso para os outros e aí a reação dos outros não importa muito. Se você tá segura com quem você é, né, então facilita as coisas, as relações.

Então, assim né, no cenário atual do nosso país, infelizmente onde muitos LGBT são mortos, são agredidos, sofrem todo esse preconceito diário, no trabalho, infelizmente, assim, com muita dor no coração, a gente precisa falar desse assunto.

Porque eu acho que é um movimento que precisa ganhar voz. A diversidade está aí, já está acontecendo no mundo inteiro. Eu acho que o Brasil é um país extremamente atrasado em relação a aceitar essa diversidade.

Como você enxerga que vai ser o futuro dos LGBT`s, da comunidade aqui no nosso país?

Dyosefan: Vou fazer um resuminho, assim, da minha história, como você propôs:

Eu nunca quis estar no meio LGBT, não que eu não esteja reivindicando meus direitos, eu estou, só que eu faço isso comigo mesma eu não preciso abrir para o mundo.

Eu faço, eu não escrevo, eu não fico digitando coisas fúteis na internet. Eu pego e faço e pronto.

Eu senti que o pessoal LGBT são muito mais separados, sabe, desentendidos, do que quem vê de fora. Tem muita briga, tem muita disputa. Acho que a comunidade precisa se unir. Realmente, pelas forças, realmente pelos direitos. Não pela bolsa, não pelo relógio, uma carteira cara. Sabe, eu acho que eles precisam se unir pelos direitos. Falta um pouco de união entre a gente.

Se a gente quer fazer alguma coisa, a gente tem que fazer. A gente não pode esperar que ninguém de fora faça. Porque ninguém faz nada para a gente. Quem faz acontecer as coisas somos nós, cada um por cada um, e todos juntos, é claro. Se cada um que fizer o seu papel, seu direito. Sem problema algum.

Mariana: É isso, ótimo conselho aí, pra galera em um momento assim desse, que a gente passa, tão triste, eu acho que a união é o que vai fazer diferença, né?

Independente do lugar onde você nasceu, se você é lésbica, se você não é, se você é gay, se você não é.

Acho que essa é a única força que você vai conseguir chegar onde vocês querem, né? Que é o mínimo de respeito, de reconhecimento, tolerância. Né?

Eu acho que a sociedade precisa ver isso e aceitar.

O que você acha que a sociedade, nossa sociedade brasileira hoje, poderia fazer para apoiar essa causa, a diversidade sexual?

Dyosefan: Eu acho que hoje todo mundo precisa resgatar um pouco da humildade da infância. Porque as pessoas hoje em dia, elas mudam pela dor. Não pelo amor, porque o amor hoje tá mais falso do que nota de 200.

As pessoas mudam pra valer quando toca na ferida delas. As pessoas só mudam quando toca na saúde, essa é a realidade do nosso país.

Quando a gente vai viajando, vai aprendendo muitas coisas, a gente vai progredindo. Pode ser pelo mau, pode ser pelo bem. Eu de vez em quando acredito que se existe uma pessoa boa e má, se uma cebola é podre pela metade, ela vai acabar sendo podre até ficar completa.

Só se você quiser fazer o bem, faça, se quiser fazer o mal, faça, mas depois você que vai ficar com isso pra você.

Antes de viajar, antes de qualquer outra atitude que você queira ter, resgate um pouco de humildade, um pouco de esperança que tem dentro de você, de mudar algo.

Essa é minha dica: resgatar a humildade.

Mariana: Ótima dica aí, pra galera que tem um pouco de medo e não sabe como lidar com esse medo, né? Você tá em Minas agora. O que você quer fazer da vida? Você quer viajar mais? Como você se enxerga hoje depois dessa experiência e quais são seus planos?

Dyosefan: Agora eu estou em um momento sabático. Eu preciso de um tempinho para pensar com cuidado sabe, sobre o futuro. Até mesmo pela situação do país, pela minha situação, eu tô um pouco desgovernada. Eu quero esperar esse tempo ruim passar para ver o que eu vou fazer, sabe?

Realmente, eu não sei, entende, mas eu pretendo viajar com certeza.

Mariana: Faz parte! Estar “perdido” não necessariamente você está fazendo nada da vida, você está esperando o tempo certo das coisas, você está se reavaliando, buscando novos caminhos.

Isso sempre vai ser o tempo válido, né? Porque você tá olhando para dentro, você tá vendo quais são os próximos passos que você tem que dar. Justamente para dar um passo grande, um passo certo. Então tirar um ano sabático faz parte, estar perdido faz parte, desde que esse caminho chegue na hora certa, né?

Dyosefan: Sim, eu li uma frase uma vez e é verdade.

“O difícil não é encontrar o caminho, é manter-se nele.“

Mariana: Com mil e uma possibilidades que tem por aí, pelo mundo né, para a gente ser, fazer, se reinventar, é meio difícil você se manter numa coisa só.

Eu queria muito agradecer sua participação, é muito importante ouvir suas experiências, sua garra, sua força, de ter conquistado que você conquistou hoje.

De ter ido atrás do seu autoconhecimento, pela sua coragem e por ter conseguido realizar as coisas que você queria. E estar feliz, isso que importa no final das contas, né?

Dyosefan: Eu que agradeço por poder compartilhar um pouquinho da minha vida com vocês. Um beijo grande!

Mariana: E é isso galera, obrigada pela presença de vocês, por terem ouvido mas um Podcast da Worldpackers.

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Obrigada e até logo!

Tchau, tchau!


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Mariana

Apaixonada por tudo que é transformador, que chega pra acrescentar e colaborar. O mundo é de troc...

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Out 19, 2018


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